A vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos parece cada vez mais certa, embora ainda exista uma série de senões à frente. A principal instabilidade é relacionada à promessa do atual presidente, Donald Trump, de contestar um eventual resultado desfavorável na Justiça.

Embora esteja torcendo para a reeleição do republicano, o governo brasileiro está, aos poucos, caindo na dura realidade. Alinhado ideologicamente com a gestão Trump, o presidente Jair Bolsonaro terá que recondicionar as relações com os Estados Unidos, dando mais atenção a questões que, até então, não eram motivo de barganha nos acordos entre os dois países.

“Não vai dar para manter um bom relacionamento com os EUA, numa eventual gestão Biden, se o Brasil seguir ignorando as pautas ambientais e sociais. Essas agendas não só serão objeto de cobrança política e moral dos Estados Unidos, mas principalmente serão usadas como elemento de barganha comercial”, diz Fernanda Magnotta, especialista em política norte-americana e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado).

Em conversa com o 6 Minutos, a especialista explicou como funciona o rito eleitoral nos Estados Unidos, quais são as reais chances de Biden ganhar, o que pode acontecer caso Trump questione o resultado das eleições, e como o Brasil fica no meio dessa ciranda política.

Os principais trechos da entrevista estão no podcast da semana (que pode ser ouvido no player), e a conversa completa está logo abaixo. Confira:

Na reta final, cada vez mais pesquisas têm cravado a eleição do Biden. Já é possível contar com um governo democrata ou tudo ainda pode mudar?

Sabemos que nos EUA as pesquisas de intenção de voto nacionais são apenas um termômetro, uma espécie de medidor de popularidade. O que importa são os votos dos colegiados, contabilizados estado por estado. Basicamente o que temos visto é uma ampliação de vantagem do Biden, principalmente em alguns estados considerados decisivos. Há muita gente apostando que ele será eleito — a divergência tem sido mais em relação à margem de vitória. Alguns analistas acreditam que a margem vai ser acachapante, e que a vitória democrata será com uma diferença grande. Outros ainda são um pouco reticentes em apostar tão alto.

O que poderia mudar o jogo nos 45 do segundo tempo?

Nos EUA, como o voto não é obrigatório e existe uma discussão intensa sobre comparecimento às urnas, a gente costuma dizer que o jogo só acaba quando termina. As pesquisas dão a vitória para o Biden, mas isso assumindo que o eleitorado de fato irá às urnas. Não podemos ignorar o fato de que historicamente a taxa de comparecimento dos eleitores é bem baixa. Por isso, um eventual esvaziamento ou uma baixa conversibilidade pode levar a resultados diferentes do que as pesquisas antecipadamente preveem. Sabemos, por exemplo, que os democratas mais jovens e mais progressistas têm sido muito céticos em relação aos candidatos nomeados pelo partido e, por isso, têm comparecido pouco nas votações. Os republicanos, por outro lado, têm sido mais fiéis em comparecimento, particularmente aqueles que se identificam com o trumpismo. Eu colocaria todas essas vírgulas para calcular as possibilidades de reversão de expectativas.

Por que a margem de vitória tem um papel importante na discussão das eleições?

Nos Estados Unidos, o presidente nos EUA é eleito com 50% dos votos + 1 no chamado colégio eleitoral. O colégio eleitoral é composto por 538 vagas, então é eleito presidente quem alcança o número mágico de 270 votos. Quanto mais longe da marca de 270 o Biden eventualmente ficar, melhor para ele, porque isso minimiza a chance de contestação e judicialização do pleito, o que atrasaria todo o reconhecimento de vitória.

Que tipo de contestação seria essa?

O Trump deu vários sinais, ao longo da campanha, de que não aceitaria com tranquilidade o resultado das votações, a depender de qual fosse esse resultado. Ele já falou que as eleições foram fraudadas, e tem criticado muito a história do voto pelos correios. Nos debates, quando questionado se aceitaria a vitória do Biden, ele tergiversou várias vezes. Se o Biden ele ficar muito próximo da margem de 270 votos no colegiado eleitoral, o Trump pode contestar a votação em um ou outro estado, o que pode levar as eleições de 2020 para um episódio parecido com o de 2000. Naquela época, houve um processo na Suprema Corte de recontagem de votos na Flórida, e que acabou invertendo o resultado das eleições. Os votos de um único estado, uma vez recontados, deram vitória ao Bush e tiraram a presidência das mãos do Al Gore.

E o que pode acontecer se o episódio de 2000 se repetir? Quanto tempo levaria para a contestação ser analisada?

Essa é uma pergunta sem resposta. Nos EUA, as regras eleitorais são absolutamente genéricas. Existe uma carta maior de normas, que é a Constituição, mas ela é bastante enxuta. Diferente aqui do Brasil, em que o código eleitoral é dirigido por uma entidade federal, lá essas leis são estaduais. Portanto, toda burocracia eleitoral é muito mais complexa, porque não há um órgão único que centralize demandas ou contestações. Eu imagino que uma judicialização do resultado mobilizaria o Congresso americano e, claro, a Suprema Corte. De qualquer forma, e acredito que vai haver uma força conjunta de todas essas estruturas institucionais para dar vazão a qualquer tipo de demanda, até porque existe urgência, sobretudo no que diz respeito às crises de saúde e econômica. Seria muito instável para um país como os EUA permanecer meses sem a definição de quem será o presidente. Eu imagino que a ideia seria não avançar a ponto de atrasar a posse do novo governo, em janeiro.

Os republicanos devem apoiar o Trump nesse possível questionamento do resultado?

Política é política, ainda veremos como vão se dar os apoios. Se o Trump contestar o resultado, veremos se os republicanos vão desembarcar ou apoiá-lo em peso. Isso depende um pouco também do resultado eleitoral do Congresso. Além da eleição do presidente, temos ainda a eleição dos senadores. As pesquisas mostram que existe uma grande possibilidade de os democratas assumirem maioria no Senado. Perder a Casa Branca e ainda eventualmente perder uma casa legislativa, onde os republicanos têm conseguido garantir algum controle da agenda, seria péssimo para o partido.

Quando o ano começou, todas as análises apontavam para uma vitória certa do Trump. A que você atribui essa virada de jogo?

A pandemia mudou o jogo. Antes da chegada do coronavírus, o Trump tinha uma ampla margem nas intenções de voto frente a qualquer um dos pré-candidatos democratas, inclusive o próprio Biden. O presidente, até então, não tinha cometido nenhuma gafe grave em política externa – como envolver-se em uma guerra de grandes proporções – e não tinha cometido nenhum erro crasso em política econômica. Esses são considerados pecados mortais para as reeleições nos Estados Unidos. Com a pandemia do coronavírus, o que vimos foi uma reversão das expectativas nessas duas frentes.

Como assim?

Tivemos um recorde de mortes nos EUA – foram mais de 200 mil mortos, o que não é pouca coisa. Às vezes as pessoas perdem um pouco o senso de medida, mas isso equivale às mortes registradas em mais de uma década de guerra no Vietnã. A opinião pública norte-americana é muito reativa a um número de mortes como esse. Ao mesmo tempo, a economia, que ia bem, começou a sofrer os revezes. Mesmo com a política assistencialista e com o governo despejando dinheiro na economia americana, a fila do seguro-desemprego bateu recorde. Até agora, a dificuldade de reabertura da economia também tem sido muito significativa. Diante do alto número de mortes e da economia em colapso, a percepção do eleitorado americano é que o presidente falhou na gestão da pandemia.

Como o Trump tem combatido essa piora na percepção do eleitorado?

Batendo na tecla de que a culpa não foi dele, que ele foi atravessado pelo que ele chama de vírus chinês. Há uma tentativa constante de dissociá-lo do problema, e de dizer que ele estava fazendo um bom trabalho até que ele foi acometido por algo que veio de fora. Mas a sociedade americana parece não ter se sensibilizado com esse discurso. No final do dia, não importa de onde a crise veio. O fato é que ela chegou e que os americanos sentiram muito na pele essas dificuldades.

Como a possível vitória do Biden impacta as relações Brasil-Estados Unidos, e como fica o governo Bolsonaro, que sempre defendeu abertamente a vitória do Trump?

O governo Bolsonaro, sem dúvida, torce desesperadamente por uma vitória do Trump, porque isso representaria uma espécie de garantia de continuidade. É como diz o ditado: as pessoas tendem a preferir o diabo que elas conhecem ao diabo que elas não conhecem. Embora o cenário não seja o melhor para o governo brasileiro, vale lembrar que nem por isso as relações bilaterais vão deixar de existir ou vão deixar de ser importantes. Se olharmos em termos de política externa, a interface entre os dois países representa há mais de 200 anos a maior linha de continuidade das relações diplomáticas brasileiras. Então, não dá para dizer que uma troca de governo acaba com tudo isso.

Então por que as pessoas têm dito que vai haver algum tipo de ajuste nessa diplomacia?

Vai, sim, haver algum tipo de ajuste, porque o governo Bolsonaro promoveu um alinhamento automático entre o Brasil e os EUA. Mas esse alinhamento não foi exatamente uma política de Estado, e sim uma política de governo, foi mais o governo Bolsonaro se aliando ao governo Trump, e não necessariamente o Brasil se aliando aos Estados Unidos. No começo do governo Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo escreveu um texto, que ficou famoso, chamado “Trump e o Ocidente”. Nesse texto ele fez uma defesa apaixonada e quase identitária do que o Trump representa em termo de valores e de visões de mundo. Houve uma associação muito pouco pragmática e bastante ideológica, que reverberou em um laço quase umbilical. Quando o governo faz isso, ele fica vulnerável, porque Estados permanecem e governos vão e vêm.

O que mudaria, na prática, com a eleição do Biden?

O governo Bolsonaro vai ter que mudar toda essa narrativa. Em primeiro lugar, é muito improvável que seja possível manter um ministro como o Ernesto Araújo. Provavelmente o primeiro passo seria substituir o chanceler e tentar recondicionar as relações em todas as frentes. Existem, também, duas pautas que nesse momento não são importantes para governo Trump, e que, portanto, não geram pressão sobre o governo brasileiro, e que numa eventual gestão Biden vão se tornar centrais. Não vai dar para manter um bom relacionamento com os EUA, numa gestão Biden, se o Brasil seguir ignorando as pautas ambientais e sociais. Essas agendas não só serão objeto de cobrança política e moral dos EUA, mas principalmente serão usadas como elemento de barganha comercial. O Brasil não vai conseguir fazer acordos e nem vai conseguir ser competitivo se não mostrar que está comprometido com o meio ambiente e sociedade. São temas que não estão gerando uma cobrança direta do governo Trump – e até por isso o governo brasileiro se sentiu relativamente tranquilo em deixar o tema de lado — mas que na gestão Biden serão exigidos.

O Brasil se viu envolvido diversas vezes nos embates políticos entre o Trump e a China. Como fica essa questão em um possível governo Biden?

As pessoas costumam descrever o Biden como alguém mais condescendente em relação ao governo chinês, mas não é o caso. O Biden, quando foi vice-presidente do Obama, era um dos líderes mais críticos da política chinesa dentro do governo. Ele chegou a declarar diversas vezes que estaria disposto a elevar barreiras e a promover uma guerra comercial com a China. São coisas que o Trump fez anos depois, e que já estavam no discurso do Biden naquele tempo. Eu acho muito improvável que o Biden afrouxe essa corda, inclusive porque esse é um dos poucos pontos de convergência da opinião pública americana, que é absolutamente crítica da política chinesa. Eu entendo que haverá incentivos do governo americano para que o Brasil, como aliado, também faça pressão contra a China, sobretudo no caso do 5G e de outras disputas tecnológicas. A relação bilateral EUA-China deve continuar sendo um ponto de muito conflito, e o Brasil vai seguir sendo triangulado para se posicionar.

Biden, se eleito, possivelmente vai pegar os EUA numa fase crítica da pandemia. Existe alguma chance de vermos o rumo da pandemia mudando, por essa nova gestão?

O primeiro grande passo de qualquer governo eleito será o de conseguir uma vacina, porque a imunização abre espaço para outras possibilidades de ação que são tidas como prioritárias. O segundo passo será um debate sobre o sistema público e o acesso à saúde nos EUA. Se o Biden for eleito, ele sem dúvida vai querer discutir algumas mudanças que o Trump fez no sistema público, depois do Obamacare. Em terceiro lugar vem a discussão econômica: que tipo de programa anti-crise esse governo estabelecido vai colocar para rodar. M

as para além da dimensão prática, existe uma discussão simbólica que é muito importante e que tem a ver com o resgate do prestígio da ciência e com o afastamento de narrativas negacionistas. O Trump representa esse negacionismo, no contexto da crise de saúde. Não só porque ele diminuiu a importância da covid-19 diversas vezes, mas também porque apoiou a distribuição de remédios sem comprovação científica, como a hidroxicloroquina. No episódio mais crítico, ele chegou a falar publicamente que os americanos deveriam injetar detergente no próprio corpo. Naquela mesma tarde, os serviços de emergência de Nova York registraram um número recorde de envenenamento por detergente. Existem algumas questões que em um primeiro momento podem parecer menores, por serem baseadas apenas em palavras, mas que por terem vindo de uma liderança como um presidente norte-americano ganham um peso enorme. Uma postura como a do Trump gera salvo-conduto para que lideranças mundo afora passem a façam coro a esse tipo de narrativa negacionista. Essa coisa de desqualificar pesquisas, de virar as costas para a comunidade médica… acho que uma eventual derrota do Trump também serve como uma resposta à sociedade americana e internacional de que existem limites que não podem ser cruzados.

O mercado financeiro tem torcido o nariz para o Biden, em razão de um possível aumento de impostos em seu governo. Essas medidas vão ter espaço em um primeiro momento, quando o presidente estará tentando reanimar a economia?

Provavelmente não. Os democratas, em geral, têm uma tendência mais intervencionista na economia do que os republicanos. Biden está na cartilha democrata, propondo uma série de coisas que têm mais apelo com a própria base partidária. O programa de governo dele fala sobre uma nova matriz energética, sobre programas com foco em desenvolvimento e sobre o combate à desigualdade. O empresariado e o mercado financeiro veem essas agendas com muita reticência, pela preocupação com o fiscal e com as questões tributárias. Mas vale lembrar que quando ainda era vice-presidente, Biden foi o articulador principal de uma série de movimentos considerados polêmicos, como o Obamacare e o plano de resgate econômico pós-crise de 2008. Ele tem certa experiência nesse trânsito, inclusive na construção de pontes suprapartidárias.

É óbvio que não veremos, em um eventual governo democrata, uma agenda tão liberalizante, como seria esperado dos republicanos. Mas vale dizer que o próprio Trump não é exatamente o símbolo de um republicano, afinal ele é, antes de tudo, um protecionista. Acredito que vai haver um esforço para buscar um equilíbrio e não fragilizar grupos importantes na definição dos interesses americanos.

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