O encarecimento dos preços dos alimentos deixou muitos consumidores assustados. Nas últimas semanas, produtos como arroz, óleo de soja e leite tiveram aumentos de até 30% nos supermercados — os itens de cesta básica estão entre os que mais subiram.

As razões para essa alta repentina são muitas, mas de acordo com André Braz, economista e coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da FGV (Fundação Getulio Vargas), a política chinesa de importação de alimentos tem sido determinante. “A China, aproveitando nossa moeda desvalorizada, tem comprado muito do Brasil. Isso desabastece o mercado brasileiro e força um aumento de preços”, diz Braz.

Em entrevista ao 6 Minutos, o economista contou o que tem influenciado o preço da comida no mercado brasileiro. Veja a conversa abaixo:

O que explica a alta recente nos preços dos alimentos, especialmente os da cesta básica (arroz, óleo, leite)?

Essa explicação passa primeiro por um aumento da demanda interna, ditada pela mudança de hábitos de consumo das famílias, que passaram a fazer mais refeições em casa. Outro ponto é que os alimentos também sobem por questões sazonais. Existem produtos cuja oferta em determinadas épocas do ano é menor, como é o atual caso do leite. Estamos no final do inverno, e esse é um período em que chove pouco, as condições de pasto pioram e o gado, com pouco alimento, produz menos leite.

A alta do dólar também contribui para o encarecimento da comida?

Sim. O câmbio afeta principalmente grandes commodities agrícolas, como o trigo, que tem uma família de derivados enorme (farinha de trigo, pão francês, biscoitos, macarrão), a soja, cujo principal derivado é o óleo de soja, mas afeta também os preços das rações que alimentam porcos e frango, e o milho, que tem os derivados (como a farinha de milho) e que serve de base de rações para o frango. Como esses alimentos são negociados no mercado internacional, a desvalorização do real acaba encarecendo os preços no mercado doméstico.

Outra razão é o volume de exportações. O Brasil é um grande exportador de produtos agrícolas e de carnes. A China, aproveitando nossa moeda desvalorizada, tem comprado muito do Brasil. Isso desabastece o mercado brasileiro e força um aumento de preços.

Pode explicar melhor essa questão das exportações?

Com o real desvalorizado, o Brasil vira uma grande vitrine para outros países — fica mais barato comprar os nossos produtos. É importante lembrar que somos grandes exportadores de soja, milho, minério de ferro, e outras grandes commodities agrícolas e não agrícolas. Quando o volume de vendas para o exterior aumenta, isso acaba desabastecendo o nosso mercado e estimulando um aumento de preços.

Atualmente o Brasil tem exportado bastante soja, milho e carnes de um modo geral. Tudo isso tem sido magnificado porque no último ano o real perdeu mais de 30% do valor frente ao dólar, então está mais barato para outros países comprar do Brasil, o que acaba desabastecendo o mercado brasileiro.

E quanto aos produtos que não produzimos?

O Brasil não é um grande produtor de trigo, por exemplo. Nós só produzimos 30% do trigo que consumimos domesticamente, então temos que importar de outros países. Como a nossa moeda está fraca, importar esse produto agora ficou mais caro. Esse é só mais um exemplo de como a desvalorização cambial acaba chegando no preço dos alimentos e causando algum tipo de inflação.

Os supermercados têm alegado que a pressão de preços vem da indústria, e que o varejo não é responsável pelo encarecimento dos produtos. É um argumento que faz sentido?

Parece ser legítima a reclamação dos supermercados, porque de fato tem havido algum aumento de preços dos produtores. A indústria está sendo afetada por muitos desses fatores que eu comentei. O aumento das commodities e o efeito do câmbio tem um efeito em cascata. Como eu disse, vários produtos agrícolas e seus derivados estão subindo já na origem, então é difícil impedir um repasse. É esperado que uma parte disso se transforme em aumento de preços de alimentos e, a partir daí, em inflação.

Além do câmbio e do aumento das commodities, existe algum outro fator que ajude a explicar o encarecimento dos alimentos? O frete, por exemplo, ficou mais caro?

A questão do frete depende diretamente dos combustíveis. Vimos que lá em março, no início da pandemia, houve uma queda brutal na cotação do barril do petróleo, o que derrubou o preço da gasolina e do diesel. No entanto, de maio para cá tem havido um efeito contrário: o preço do barril de petróleo está recuperando sua posição. Além disso, a alta do dólar também estimula o encarecimento dos combustíveis. É provável que esses dois fatores afetem, sim, o preço do frete, mas eu não acredito que essa seja uma razão forte para a alta recente no preço dos alimentos.

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