Físico, professor de economia e pesquisador do Ibre-FGV, Samuel Pessôa está mais otimista que parte dos seus colegas sobre o desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) no ano que vem. Para ele, o Brasil consegue crescer entre 1,5% e 2%, um desempenho fraco na sua avaliação, mas bem acima acima do 0,5% projetado por alguns bancos.

São três os fatores que permitiriam esse cenário: o carregamento estatístico (ou seja, o quanto a economia leva para 2022 do desempenho do último trimestre do ano), a normalização adicional da atividade trazida pelo avanço da vacinação no país e um ponto que não vem sendo tão comentado: a forte alta na arrecadação de impostos pelos Estados.

“No acumulado de janeiro a agosto deste ano, o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] está com um crescimento de 14% em termos reais [descontada a inflação do período] na comparação com o mesmo período de 2019, no pré-pandemia”, disse ele em entrevista ao 6 Minutos. “Ou seja, os Estados estarão com um bom caixa, e como o ano que vem é de reeleição, o investimento público deve ajudar a manter a demanda em alta”.

Para Pessôa, que também é sócio diretor do Julius Baer Family Office, parte da forte desvalorização do real que o Brasil experimenta desde a pandemia está relacionada com o comportamento do presidente Jair Bolsonaro.

“Acho que no dólar tem muito das escolhas do presidente. Ele foi eleito, começou a governar em 2019 e o Congresso eleito com ele é muito reformista, tinha condições de aprovar uma política fiscal que construísse condições para um ciclo de crescimento lá na frente”, diz. “Mas o presidente tem outra agenda, que parece que é dar um golpe, instituir regimes de força”.

Leia abaixo a entrevista completa.

Alguns bancos já falam que a alta do PIB no ano que vem ficará em 0,5%. Na sua avaliação, teremos um 2022 de baixo crescimento econômico?

Em um cenário em que não haja racionamento de energia, em que as chuvas até março e abril do ano que vem sejam normais, acredito em um crescimento em torno de 1,5% a 2%. Ou seja, estou mais otimista.

E quais seriam os drivers desse crescimento? Em primeiro lugar, tem aquele componente estatístico que um ano deixa sobre o seguinte. Neste final de ano, vamos rodar em um crescimento acima da média. Mesmo que não haja nenhum crescimento no ano que vem, o carregamento estatístico [como os economistas classificam a herança do último trimestre de um ano para o ano seguinte, seja positiva ou negativa] será de 1%.

Existe um segundo fator que vai ajudar que é o fato de que ainda há alguma normalização da economia para acontecer em 2022. Estamos avançando na vacinação. Quando olhamos Brasil em relação a outros países da América Latina, estamos bem na foto. Em outubro, chegarão as vacinas Janssen, que requerem só uma dose.

Um terceiro fator no meu entender permite um crescimento um pouco melhor ano que vem. A recuperação em V que ocorre na economia desde o terceiro trimestre do ano passado foi muito heterogênea. Quem ficou mais para trás foram os chamados outros serviços, que é turismo, alimentação fora de casa. É um segmento altamente empregador, em especial de pessoas de escolaridade mais baixa.

Já no caso dos mais formalizados, trabalhadores com maior escolaridade, com capacidade de arrecadação maior, a receita está com um crescimento muito forte. O ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] no acumulado de janeiro a agosto deste ano na comparação com o mesmo período de 2019 está com um crescimento real [descontada a inflação do período] de 14%, ao mesmo tempo em que os gastos com salários do funcionalismo estadual estão controlados.

Ou seja, os estados estarão com um bom caixa, e como o ano que vem é de reeleição, o investimento público deve ajudar a manter a demanda em alta.

E o que joga contra uma melhora maior na atividade?

O fator contrário, que é o que está pesando, é a política monetária, que vai ser contracionista porque a inflação está alta. O Banco Central deve subir os juros até 9%, 9,5%, e no final do ano a pesquisa Focus deve sugerir uma inflação em torno de 4,5% em 2022.

Ou seja, os juros reais serão de 5%, sendo que a taxa de juros neutra, que é aquela que não gera contração nem expansão da economia, fica em torno de 3%. É uma diferença em torno de 2 pontos percentuais, que eu acho que tira de 0,5 ponto a 0,7 ponto percentual de alta do PIB.

É possível que o BC não tenha que chegar a 9%, 9,5% de Selic?

Depende muito do balanço de riscos. O Banco Central avisou que que vai nesse ritmo de 1 ponto em 1 ponto, porque é o ritmo suficiente para combater a inflação e ao mesmo tempo lento suficiente para permitir que se acumule mais informações no processo.

Essa inflação que estamos combatendo é fruto de uma sequência impressionante de choques de oferta. Isso impacta na inércia da inflação: quando os impactos são muito intensos, a inflação adquire uma dinâmica própria. Mas se a inflação começar a devolver, o BC não precisa subir juros até 9%, 9,5%. Já se ela continuar avançando por mais seis, sete meses, vai ter que subir a 12%.

Quando a demanda do mundo inteiro voltou, ela voltou desequilibrada. Todo mundo ficou trancado dentro de casa, e quando isso acontece, há um mix diferente na demanda por bens e serviços do que quando a vida está normal.

As pessoas consomem mais bens e menos serviços. Todo mundo teve que comprar computador, uma televisão a mais, eletrodomésticos para cozinhar. Não vai na academia, compra um equipamento de ginástica. E isso aconteceu no mundo todo, simultaneamente no tempo e espaço. Quando uma crise de oferta acontece em um país, esse país compra de outro país. Mas quando se fala em mundo, não tem como importar de Marte, de Vênus.

Nós aprendemos o que acontece quando há um choque de demanda em uma economia fechada. Vira inflação.  Um choque como esse nunca ocorreu antes.

Por que a arrecadação dos Estados está crescendo tanto em relação a 2019? 

É a recuperação em V da economia, que setorialmente foi muito desequilibrada, favorecendo os setores que são mais formalizados e que geram mais impostos. O ICMS é um imposto muito ligado a mercadorias, ao comércio de bens.

Já a arrecadação federal está crescendo 7% em termos reais na comparação com 2019, e isso puxado principalmente pelos impostos sobre lucros das empresas. O setor formal está bombando, está vendendo muita mercadoria, ao mesmo tempo em que os salários estão contidos. Isso estimula geração de caixa.

Essa é uma situação que favorece ainda mais a desigualdade? 

Sim. Tem uma lei do capitalismo que é: quando há uma crise econômica profunda, os mais pobres sentem mais. Por isso a política econômica tem que ser cuidadosa. A pandemia agravou isso, é uma crise que afetou proporcionalmente mais os setores de baixa produtividade, de baixa formalização de mão de obra.

Como o governo Bolsonaro deveria agir em relação ao auxílio emergencial e Auxílio Brasil? 

Vários colegas já escreveram sobre isso. Tem espaço pra fazer melhora no Bolsa Família, pagar precatórios e ainda fechar o Orçamento dentro do teto de gastos. O problema é que os parlamentares querem mais emendas, os empresários querem manter a desoneração da folha de pagamento, e falta dinheiro.

Estamos discutindo o Orçamento do ano que vem, mas há tantos interesses em jogo, tantos objetivos, que vai ser difícil caber. Se as emendas de relator forem reduzidas, se o fim da desoneração da folha for mantido, já dá para manter o teto, dar aumento no Bolsa Família e pagar os precatórios.

Qual o papel do governo Bolsonaro nesse dólar em patamar tão alto?

Acho que no dólar tem muito das escolhas do presidente. Ele foi eleito, começou a governar em 2019, e o Congresso eleito com ele é muito reformista, tinha condições de aprovar uma política fiscal que construísse condições para um ciclo de crescimento lá na frente.

Mas o presidente tem outra agenda, que parece que é dar um golpe, instituir regimes de força. É difícil entender as prioridades dele. Fazer as reformas para dar condições de crescimento ao país não parece ser uma delas.

Quando veio a pandemia, o país já estava em uma situação fiscal delicada, e isso foi para o dólar. Tem muito das escolhas do presidente da República nessa moeda tão depreciada como a que a gente tem.

Quais as consequências desses problemas externos que estamos vendo, como crise de energia na China e ameaça de estagflação, no Brasil?

A crise de energia na China deve se normalizar, mas ainda piora antes de melhorar, porque a China reduziu os seus estoques de carvão em um momento em que ninguém imaginava uma recuperação tão forte da economia global, mas isso irá se normalizar.

O choque da Evergrande [segunda maior incorporadora da China, com dívidas de mais de US$ 300 bilhões), na minha visão, não vai gerar uma crise sistêmica, mas vai reduzir o crescimento econômico chinês. Se antes achávamos que a China ia crescer 5,2%, agora vai ser 4%. Afeta a Vale, é claro, mas ao mesmo tempo o Brasil exporta muita soja e milho para o país. As pessoas não deixarão de comer.

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