As secas induzidas pelas mudanças climáticas ameaçam afetar mais da metade dos campos de trigo do mundo, e cientistas alertam para possíveis turbulências nos mercados e para a instabilidade política.

Essa é a conclusão de uma nova pesquisa revisada por cientistas e publicada na revista Science Advances. A escassez de água mais severa e prolongada tornará mais difícil cultivar o trigo, que responde por 20% das calorias diárias da humanidade. As projeções do estudo mostram que 60% das áreas atuais de cultivo de trigo podem enfrentar secas até o final do século caso as mudanças climáticas não sejam mitigadas, em comparação com 15% hoje.

“Esses acontecimentos podem aumentar a insegurança alimentar e, consequentemente, a instabilidade política e a migração”, escreveram pesquisadores de organizações como o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados, na Áustria. Mesmo que as temperaturas na Terra fiquem dentro dos limites prescritos pelo Acordo de Paris para conter a emissão de gases de efeito estufa, a área de cultivo sob ameaça pode dobrar, escreveram.

Exportador se vê obrigado a importar

As descobertas destacam como a mudança dos padrões climáticos vai interferir na sorte de agricultores em todo o mundo, enriquecendo alguns e diminuindo a produtividade para outros. A seca prolongada “fritou” os grãos no leste da Austrália neste ano, obrigando o país, geralmente o maior exportador de trigo do hemisfério sul, a fazer uma rara importação de trigo canadense.

O aquecimento global exigirá que as economias encontrem novas maneiras de se alimentar, com o cultivo migrando para áreas com condições mais adequadas, disseram os pesquisadores.

“Se apenas um país ou região experimentar uma seca, há menos impacto”, escreveram os autores Miroslav Trnka, professor da Universidade Mendel, na República Tcheca, e Song Feng, da Universidade do Arkansas. “Mas, se várias regiões são afetadas simultaneamente, isso pode afetar a produção global e os preços dos alimentos, além de levar à insegurança alimentar.”

“Grave escassez de água”

Alguns dos principais exportadores de trigo do mundo, Rússia, Estados Unidos e França, podem enfrentar grave escassez de água, enquanto agricultores na América do Sul seriam apenas “marginalmente afetados”, segundo o estudo.

O trigo é diferente de outras culturas de grãos, porque geralmente não é irrigado, mas depende dos padrões naturais de chuva para crescer. Os pesquisadores usaram mais de duas dúzias de modelos climáticos e hidrológicos para chegar às conclusões.

O estudo contribui substancialmente para informar sobre uma área que costuma ser negligenciada, a dos impactos dos extremos climáticos na agricultura, pois revela dados sobre a probabilidade de choques causados ​​pela seca em um futuro próximo”, escreveu Petr Havlik, pesquisador do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados, que contribuiu para o relatório.

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