O crescimento das vendas no varejo em abril surpreendeu as previsões mais otimistas. A PMC (Pesquisa Mensal do Comércio) mostrou que as vendas subiram 1,8% em relação a março. Foi a maior alta para o mês desde 2000. A FGV (Fundação Getulio Vargas) previa um crescimento de 0,2%, enquanto outras entidades estimavam uma queda de até 1%.

Na comparação com abril de 2020, logo após o início da pandemia, o volume de vendas do varejo cresceu 23,8%. Com o resultado de abril, o setor fica 0,9% acima do patamar pré-pandemia.

O que está por trás desse crescimento surpresa? Uma combinação de fatores, veja abaixo:

Base de comparação: Março deste ano foi um mês de queda para o varejo (-0,6%). Abril de 2020 foi pior ainda: tombo de 16,8%. Quando você compara com meses mais fracos, a tendência é que o resultado fique melhor mesmo.

“É preciso tomar cuidado com algumas comparações. Comparar março com abril não é uma boa. Os meses têm muita sazonalidade e os dados tendem a não contar toda história, ainda mais em tempo de pandemia. Março foi um mês muito complicado, teve uma aceleração importante do coronavírus. São Paulo entrou numa fase inédita, mais restritiva ainda, diversos Estados restringiram a circulação de pessoas”, diz Eduardo Yamashita, COO da Gouvea Ecossystem, consultoria de varejo.

A comparação com abril de 2020 tem outros pontos a serem observados. “Mais uma vez, em ano de pandemia, é complicado fazer essa comparação. Março e abril foram meses muito ruins para o comércio, então a comparação sempre vai mostrar recuperação”, continua Yamashita.

Mais flexibilização: Em abril do ano passado, a maioria do comércio precisou ficar de portas fechadas para conter o avanço da pandemia de coronavírus. Em abril deste ano, apesar de algumas restrições permanecerem, a flexibilização das regras sanitárias permitiu que várias atividades pudessem funcionar.

“No ano passado, as restrições eram mais fortes e o comércio não tinha um horizonte de vacinação e controle do coronavírus. Houve um aprendizado, os governos conseguiram manter restrições com uma flexibilização maior”, diz Rodolpho Tobler, coordenador da sondagem do comércio da FGV.

Avanço do e-commerce: Em abril do ano passado, os comerciantes tinham sido surpreendidos pelo fechamento de suas lojas e muitos ainda não estavam preparados para vender em um ambiente digital. Passado um ano, muitos aprenderam a vender online.

“Acho que houve muito aprendizado nesse um ano, uma parte dos comerciantes conseguiu de reinventar e aprendeu a trabalhar nesse ambiente de restrições”, afirma Rodolpho Tobler.

Volta do auxílio emergencial: Mesmo com valor menor e menos abrangente, o auxílio sempre tem o poder de ajudar a reativar a economia. “O auxílio sempre melhora o poder de compra. Embora muita gente tenha utilizado ele para pagar dívidas, uma parte sempre acaba direcionada para o consumo”, diz Tobler.

O que mais vem por aí? O economista da FGV diz que o bom desempenho de abril ajuda o setor de comércio a entrar melhor no segundo trimestre. “O caminho natural é o da recuperação. Já temos outros dados que indicam para esse caminho, como aumento da confiança do comércio em maio, ampliação da flexibilização em maio e expectativas positivas com o avanço da vacinação.”

Existem riscos para essa expectativa positiva? Sim, como sempre. O principal deles envolve as incertezas relacionadas à pandemia e avanço da vacinação. “A recuperação do mercado de trabalho é fundamental para a retomada da economia. Para que o emprego se recupere, o controle da pandemia e avanço da vacinação são essenciais.”

Se nada disso acontecer, a recuperação fica ameaçada. “A gente não sabe se a pandemia vai piorar, se vai haver uma terceira onda. Se isso acontecer, a flexibilização pode ter um novo aperto. Por outro lado, se tivermos mais vacinados um mercado de trabalho melhor, o segundo semestre vai ser bem mais forte.”

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