O Brasil nunca criou tantas empresas na história, mas a razão não é para se comemorar. Em meio à pandemia de coronavírus, que mergulhou o país na segunda grande crise econômica em um período de menos de 10 anos, o elevado número de desempregados vem levando muita gente a virar MEI (microempreendedor individual) como forma de sobreviver enquanto o mercado de trabalho não melhora.

Esse é o cenário revelado por um indicador da Serasa Experian, que compila informações de abertura de pessoas jurídicas em juntas comerciais de todos os estados. Segundo dados repassados com exclusividade pela empresa para o 6 Minutos, somente no acumulado deste ano até abril (último dado disponível), já surgiram 1,38 milhões de empresas, alta de 27% na comparação com o mesmo período de 2020.

No ano passado todo, surgiram 3,4 milhões de empresas, número recorde que será superado com folga neste ano, segundo o economista da empresa de avaliação de dados de crédito e consumo, Luiz Rabi. Ele aponta que cerca de 80% dessas pessoas jurídicas que nascem no país são MEIs.

“Esse número neste ano com certeza ultrapassará os 3,5 milhões, ou seja, um novo recorde. Acho que será até mais, se eu tivesse que apostar, diria que estará mais perto de 4 milhões do que de 3,5 milhões”, avalia ele. “Para se ter uma ideia do que isso significa, em 2017 o patamar era quase a metade, de 2 milhões de empresas criadas”.

Desemprego elevado explica recorde

A razão para essa disparada na criação de empresas, em especial MEIs, é principalmente o elevado número de desempregados no Brasil –no trimestre encerrado em abril, eram 14,8 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Estamos com 15 milhões de brasileiros desempregados, e esse contingente aumentou na pandemia. Essas pessoas precisam sobreviver. Uma parte se vira com o auxílio emergencial, mas não é todo mundo que recebe, e não dá para ficar contando com ele para o resto da vida”, afirma o economista.

De acordo com ele, o fato de o país ter acumulado duas crises em um período curto de tempo –a última durou de 2014 a 2018– também explica esse salto. “Estamos vivendo uma crise desde a época de Dilma Rousseff, em 2014. E aí veio a pandemia. Já faz um certo tempo que as pessoas estão sendo meio que empurradas para se tornarem empresárias. É o empreendedorismo de necessidade, e não de oportunidade”.

Ele lembra que dois terços das novas empresas que vem sendo fundadas no país são no setor de serviços. “São manicures, empresas de bolos, doces, marido de aluguel. Atividades que requerem pouco investimento, que não necessitam de um ponto comercial e que podem ser desenvolvidas em casa ou na rua”, explica o economista.

A opção pela criação do MEI está relacionada à facilidade de se criar essa microempresa e os benefícios que vêm com ela, como crédito mais barato. Essa figura jurídica foi criada em 2008 para promover a formalização com uma carga tributária menor, dando a profissionais autônomos e microempresários a opção de tornarem seus empreendimentos legais.

Ao se tornar MEI, o negócio que tem um faturamento máximo de R$ 81 mil por ano pode ter um CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas), se enquadrando no Simples e pagando impostos de uma vez só (o valor depende do ramo de atividade, mas a média é de R$ 50 por mês).

Segunda onda impactou dados

Rabi destaca ainda que em abril, quando houve uma onda de fechamentos nas grandes cidades por causa da segunda onda, houve queda de 10% no nascimento de novas pessoas jurídicas.

Ele afirma que a expectativa é que esse cenário seja revertido nos próximos meses.

“Abrir uma empresa é uma decisão importante, não é como comprar açúcar no supermercado. Muita gente coloca todas as economias no novo negócio, e momentos como esse que tivemos, da segunda onda determinando lockdowns pelo país, influenciou nesse quadro”.

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