A notícia de que o presidente americano Donald Trump havia determinado o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas, marcou apenas mais um capítulo os conflitos entre Estados Unidos e a China. A decisão foi tomada sob o argumento de “proteger a propriedade intelectual americana e as informações privadas dos americanos” — a China prometeu uma retaliação, que ainda não veio.

Apesar do clima tenso entre as duas maiores economias mundiais, boa parte dos índices de ações passou ao largo da notícia. As principais bolsas americanas fecharam o dia no azul, e o Ibovespa acabou a quarta-feira (dia 22) no zero a zero. Em outros momentos, qualquer sinal de animosidade entre China e Estados Unidos causou um clima de aversão a risco e derrubou os mercados financeiros.

O que mudou? Paloma Brum, economista da corretora Toro Investimentos, explica que a grande agenda dos mercados externos em 2019 era a guerra comercial e que, por isso, qualquer notícia relacionada às tarifas impostas pela China e pelos Estados Unidos fazia com que os investidores repensassem seus portfólios.

“Não é que o conflito atual não cause impacto, mas tem outras coisas preocupando o mercado. Hoje temos uma agenda muito mais conturbada. O avanço dos casos de coronavírus e o ritmo de retomada das economias tem um peso maior, o que faz com que a tomada de decisão dos investidores seja bem mais complexa”, diz a economista.

Ela diz que o contexto da pandemia deve ser determinante para o grau de impacto que a tensão entre Estados Unidos e China terá nos mercados financeiros. Sendo assim, um evento negativo entre os dois países ocorrido no mesmo dia em que dados econômicos positivos forem divulgados, por exemplo, tenderá a fazer um estrago menor, ou até a não ser suficiente para puxar os índices para o campo negativo.

Pode-se dizer que foi isso que aconteceu nessa quarta-feira. Apesar da notícia sobre o fechamento do consulado da China, os mercados repercutiram as boas notícias sobre os testes com as vacinas contra o coronavírus e dos resultados positivos dos balanços financeiros de empresas, inclusive aqui no Brasil.

Mas até quando vai essa tolerância dos investidores? Apesar da maior resistência do mercado à contaminação do cenário político, alguns eventos dos próximos meses podem fazer com que a briga entre Estados Unidos e China ganhe maior peso na análise de risco. O primeiro e mais importante deles é a corrida pela presidência norte-americana.

“O próprio conflito com a China faz parte das ideias que elegeram o presidente Trump em 2016, então ele pode reforçar as tensões para angariar mais votos de uma parcela mais conservadora de seu eleitorado”, diz Ilan Arbetman, analista da corretora Ativa Investimentos.

Ele diz que embora a China ainda não tenha retaliado os Estados Unidos em razão do fechamento do consulado, existe um campo minado perigoso à frente. “Temos as acusações dos americanos de que a China escondeu informações sobre o coronavírus no início da pandemia, a questão do roubo de tecnologia, o conflito por causa da rede 5G de celulares… enfim, são muitas faíscas de uma bomba que estava adormecida, e que agora foi reacesa”, diz o analista.

Embora os índices acionários ainda não tenham reagido tão mal, outros indicadores de risco começam a sinalizar um clima de alerta. O ouro, considerado um porto-seguro nos momentos de turbulência, atingiu nessa quarta-feira a maior cotação desde 2011.

“O mercado começa a montar posições que trazem mais segurança, saindo do mercado de risco e indo para o seguro. A migração para o dólar, o ouro, títulos da dívida americana ou ações mais resilientes a um cenário de crise já começou”, diz Brum, da Toro.

Gran finale

Apesar do prognóstico ruim, a economista da Toro lembra que Trump conseguiu avançar em termos que beneficiam os americanos. A primeira fase da trégua comercial assinada entre os Estados Unidos e a China em janeiro previa, por exemplo, que os chineses passariam a importar mais US$ 200 bilhões em produtos dos americanos.

“Esse tipo de medida repercute positivamente na popularidade dele, especialmente entre a classe média. Por isso é esperado que Trump arraste o conflito para muito próximo das eleições, deixando uma espécie gran finale para perto das votações para que isso fique fresco na memória do eleitorado”, diz Brum.

A última cartada poderia ser um novo acordo com os chineses, ou alguma nova retaliação que privilegie os produtos dos Estados Unidos. As possibilidades completamente opostas indicam que o grau de incerteza permanece alto, mas que a temperatura deve aumentar nos próximos meses. Investidores, apertem os cintos.

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