Foram longos dias de indefinição até que o democrata Joe Biden fosse declarado vencedor das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Ao longo da última semana, a lenta apuração de votos em diferentes estados chegou a mover o ponteiro para a reeleição de Donald Trump, mas, no final das contas, foi Biden quem ficou com a faixa de presidente. Embora o esperado desfecho tenha acontecido, o assunto das eleições não está morto e enterrado ainda.

Assunto encerrado?

O atual presidente dos EUA promete brigar na Justiça para tentar reverter o resultado. Mas as chances de Trump ter sucesso na contestação legal é baixa. Até agora, o republicano não apresentou nenhuma prova concreta de que as eleições foram, de fato, fraudadas. Sendo assim, resta ao atual presidente o caminho do pedido de recontagem de cédulas nos estados em que a diferença de votação foi pequena. As chances, no entanto, de Trump ter a vitória por essa via é mínima, já que a vantagem de Biden foi sólida suficiente para garantir a sua vantagem.

Como a vitória foi recebida? Diante de tudo isso, o céu ficou bem mais claro para a situação política nos Estados Unidos. Com Biden na presidência, o Senado controlado por republicanos e a Câmara liderada por democratas, o país vai continuar com um governo misto. O que pode parecer conflituoso a um primeiro olhar é, na verdade, um prognóstico positivo para o país, especialmente para o mercado financeiro.

“Um estudo publicado recentemente mostra que, desde 1901, a melhor performance da bolsa americana se deu durante mandatos de presidentes democratas associado a um Congresso republicano, ou a um Congresso dividido entre os dois partidos, como possivelmente teremos nos próximos 4 anos”, observa, em relatório, Fernando Ferreira, estrategista da XP Investimentos.

O momento atual é inédito, em razão da pandemia do coronavírus, mas a expectativa é que até mesmo nessa frente o controle republicano no Senado e democrata na Câmara seja positivo. “O Congresso dividido deve diminuir a probabilidade de os democratas aprovarem um plano de aumento de impostos impopular. Além disso, o pacote de estímulos aprovado pelos democratas deve ser ainda maior que o pacote dos republicanos (pelo menos US$2 trilhões, segundo os jornais, ou quase 10% do PIB), sendo recebido como positivo para os mercados”, afirma Ferreira.

A aprovação de um novo pacote de estímulo financeiro para empresas e famílias é uma pauta importantíssima para os próximos dias, à medida que os novos casos de coronavírus se multiplicam nos Estados Unidos, o que pode demandar o fechamento de parte do comércio e serviços nas cidades norte-americanas.

Embora essa seja uma negociação que ainda deva acontecer sob a comando de Trump, a expectativa é que o fim das eleições coloque a pauta para andar, principalmente agora que ficou claro que o desenho do Congresso será mais ou menos o mesmo.

O que pode dar errado? Embora o jogo democrático dos Estados Unidos seja mais sólido, sempre há a possibilidade de Trump imobilizar as agendas de governo até o fim do mandato. A hipótese não é dada como certa, pois o Congresso, inclusive a parte republicana, deve pressionar pela assinatura de algum acordo, mesmo que seja o de um pacote de estímulos menor, para tentar brecar a queda da economia.

Outro ponto de atenção é a repercussão social das eleições. Na semana passada, ainda durante a apuração, grupos pró e contra o atual presidente tomaram as ruas de diversas cidades norte-americanas. A narrativa de eleições fraudadas, defendida por Trump, incendiou protestos de ambos os lados, e criou um clima de instabilidade social.

“Até agora, não foram protestos violentos ou marcados pelo confronto com a polícia. Acredito que os protestos perderão força, à medida em que teorias conspiratórias também percam a a força nas redes sociais”, diz Conrado Magalhães, analista político da corretora Guide Investimentos.

Explosão de casos de covid-19

Dia após dia, o número de casos de coronavírus bate recorde em países europeus e nos Estados Unidos. A segunda onda da doença, embalada pela chegada do inverno no hemisfério norte, tem preocupado especialistas, principalmente pela aceleração da taxa de contágio e pelo risco de colapso dos hospitais e unidades de atendimento. A maioria dos países do bloco europeu entrou em quarentena na semana passada, e os efeitos da paralisação parcial da economia já devem começar a surgir.

Nos Estados Unidos, as eleições tiraram dos holofotes a rápida progressão da pandemia no país. Nos últimos dias, o número de casos diários saltaram para mais de 120 mil no país — o maior desde que a pandemia começou. A agenda conturbada de troca de presidência deve interferir nas medidas de contenção da doença no país, o que pode multiplicar ainda mais o contágio local. Mas, de novo, o pacote de estímulo deve ser essencial para o cenário de curto prazo.

Balanços no Brasil

Com o assunto eleitoral parcialmente superado nos Estados Unidos, os balanços financeiros das empresas brasileiras devem voltar a ter mais influência sobre as cotações do Ibovespa. Na semana, resultados de peso, como os do Magazine Luiza, Itaúsa, BRF, Carrefour, JBS, Natura e vários outros devem movimentar o mercado.

A expectativa é de resultados melhores no terceiro trimestre, principalmente para os setores ligados ao e-commerce e às exportações. Os destaques devem ficar para o Magalu, Carrefour, JBS, BRF e Marfrig. Os números das construtoras também são esperados ansiosamente: MRV, Cyrela, Trisul e outras empresas do setor divulgarão seus resultados, e a expectativa é que o ciclo de juros mais baixo tenha impulsionado as vendas de imóveis novos.

No entanto, para os outros setores, as notícias não são de tudo ruins. As empresas influenciadas diretamente pelo consumo, como a Natura, C&A e Riachuelo, devem ter um trimestre melhor do que o anterior. A reabertura das lojas no trimestre marcou a saída do fundo do poço para o segmento.

Veja abaixo o calendário de balanços da semana:

Segunda-feira: Magazine Luiza, Itaúsa, BRF, Yduqs, Linx, Lojas Marisa;

Terça-feira: Banco BTG, Carrefour, BR Distribuidora, Qualicorp, Movida;

Quarta-feira: Eletrobras, JBS, Via Varejo, Braskem, Marfrig, MRV, Riachuelo;

Quinta-feira: B3, Natura, SulAmérica, CPFL, Banco Inter, Cyrela, Oi, C&A, CVC;

Sexta-feira: Cosan, Cogna.

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