A economia vem mostrando mais força na segunda onda da pandemia de coronavírus no Brasil do que a primeira, e essa resiliência vem fazendo muitos analistas revisarem para cima suas projeções para a alta do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021.

Não que a situação esteja para otimismo. Mesmo se neste ano a economia crescer os 3,21% esperados pela média dos analistas ouvidos pelo Banco Central (há quatro semanas, a projeção era de 3,08%), estará somente recuperando parte do tombo que sofreu em 2020, de 4,1%.

De qualquer forma, os indicadores de atividade dos primeiros quatro meses do ano, que medem vendas no comércio e serviços e produção industrial, estão vindo melhores do que o imaginado, cenário que já faz algumas instituições financeiras de peso, como o Itaú Unibanco e a XP Investimentos, apostarem em um crescimento mais robusto, de 4%.

“As notícias dos últimos meses são um pouco menos desalentadoras”, brinca Mario Mesquisa, economista-chefe do Itaú. “Para o primeiro trimestre, vemos um crescimento entre 0,4% a 0,5% do PIB. Para o segundo tri, com poucos dados apurados até agora, já vemos expansão. Há pouco tempo, víamos queda”, afirma, explicando a decisão do banco de elevar sua projeção de 3,8% para 4%.

O maior banco privado do país aponta que dados de consumo de bens, serviços e uso de energia elétrica pela indústria já apontam para uma recuperação, neste início de maio, aos níveis pré-crise. Veja abaixo o desempenho do Idat, que é o  indicador de atividade econômica diário do Itaú.

 

Crédito: Reprodução/ Itaú Unibanco

Vacinação e menos medo do vírus

O avanço da vacinação é apontado pela XP como um dos motivos que levou a casa a revisar sua projeção de 3,2% para 4,1%. “A economia brasileira vem se normalizando mais rápido do que o esperado com o avanço da vacinação. Para frente, a nova rodada de programas de sustentação da economia e um cenário externo benigno, com manutenção do ciclo de alta das commodities, devem sustentar a retomada da atividade econômica no segundo semestre”, analisa Caio Megale, economista-chefe da XP.

É uma avaliação parecida com a de Alex Agostini, economista chefe da Austin Rating, que espera um crescimento mais modesto, de 3,3%.  “A economia está sendo menos afetada do que no ano passado”, reforça. “Há algumas razões para isso. O processo de imunização dá uma confiança maior para a população. Além disso, o medo das pessoas de saírem de casa está menor do que no ano passado. É só observar que vira e mexe o trânsito está carregado”.

Poupança forçada e aprendizado

Outro fator relevante é a poupança forçada que uma parte dos brasileiros fez no ano passado, seja por medo da crise, seja pela queda no consumo como consequência do próprio isolamento social. Mesmo entre a população de menor renda, que recebeu auxílio emergencial, muita gente economizou parte dos recursos, como mostram dados do FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Parte dessas economias estão voltando à atividade neste início de ano.

“A economia brasileira tem mostrando elevado grau de resiliência ao choque da covid e à própria redução dos estímulos do início do ano”, afirmou o Bradesco, que acredita em alta de 3,3% no PIB. “O ambiente global favorável, a disponibilidade de crédito, os juros baixos, a poupança acumulada durante a pandemia e o desempenho do mercado de trabalho têm mais do que compensado a piora das condições financeiras desde o início do ano, e compõem os vetores por trás dessa resiliência”.

Por fim, o próprio processo de aprendizado com a crise de 2020, com muitos setores forçados a se adaptarem às novas condições, vem permitindo uma melhoria na reação às medidas de isolamento social que governadores foram forçados a adotar pelo avanço da infecção.

“Houve um aprendizado por parte das empresas, da indústria, parte do setor de serviços”, aponta Mario Mesquisa, economista-chefe do Itaú Unibanco. “Escutamos isso de empresas, que na primeira onda tiveram que parar duas semanas até funcionar o home office, agora já sabem, por exemplo. É uma situação dramática do ponto de vista humanitário, mas a economia se adapta”.

Do buraco para o barranco

Apesar de as previsões mais pessimistas não estarem se confirmando, é importante lembrar que a retomada da economia brasileira vem sendo dificultada pela lentidão no processo de vacinação, e que ainda mostra fraqueza.

Boa parte da expansão da atividade neste ano será possibilitada pelo chamado “carregamento estatístico”, ou seja, a comparação será com os patamares baixíssimos de atividade registrados no ano passado.

“Saímos do buraco e sentamos no barranco, só isso”, aponta Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Social). “A piora do quadro sanitário e a ausência dos programas emergenciais no primeiro trimestre interromperam a recuperação econômica”.

 

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