O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevou nesta quarta-feira (4) a taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual, para 5,25% ao ano. O ajuste de hoje foi mais acentuado do que o colegiado havia previsto em sua reunião anterior, de 16 de junho, mas parte do mercado já esperava uma elevação dessa magnitude.

Para o próximo encontro, que será realizado dentro de seis semanas, o Copom prevê nova elevação de 1 ponto, fazendo a Selic subir para 6,25%. O comitê argumentou que fatores como a persistência da pressão inflacionária, a variante delta do coronavírus e o risco de agravamento do quadro fiscal justificam “um ciclo de elevação da taxa de juros para patamar acima do neutro“.

O que essa alta na taxa Selic muda nos investimentos em renda fixa? A alta em si não muda muita coisa, pois era esperada por parte do mercado, incluindo os principais bancos brasileiros, e já estava precificada nos títulos. Por isso, não deve haver remarcações nas prateleiras dos produtos de renda fixa.

Mas esse é mais um pequeno passo que aumenta a atratividade da renda fixa e ajuda a atrair de volta investidores que haviam sido afugentados pelos retornos baixos.

“Com a taxa Selic em 2%, até mesmo os mais conservadores tinham dificuldade de se manter apenas nesse tipo de investimento. Tanto é que muitos fundos de ações bateram recordes de captação na metade de 2020”, lembra Gabriela Mosmann, analista de investimentos da Suno Research. “Agora, com esse ciclo de alta da Selic, o custo de oportunidade de investir em renda variável aumenta, fazendo muitos retomarem seus investimentos em renda fixa.”

Como ficam os títulos pós-fixados? Como eles são atrelados ao CDI, indicador que acompanha de perto a variação da taxa Selic, a alta de hoje tende a ampliar os rendimentos desses papéis.

Para a reserva de emergência, eles sempre foram e sempre serão a escolha mais indicada, qualquer que seja o patamar da Selic, porque oferecem liquidez com segurança, sem o risco de perdas em caso de resgate antecipado. Já para outras finalidades, tudo dependerá da inflação. Isso porque o que importa para o investidor é garantir um juro real, ou seja, um rendimento superior à variação da inflação.

“Em um prazo mais curto, os papéis indexados ao CDI podem ter um rendimento ainda abaixo da inflação, a depender de como será a política monetária conduzida pelo Copom. Por isso, para garantir o juro real, é mais prudente alocar em títulos atrelados ao IPCA”, opina Adriano Rondelli, especialista em renda fixa da Valor Investimentos.

Caíque Coutinho, especialista em renda fixa da Veedha Investimentos, diz que os papéis pós-fixados tendem a ficar mais atrativos na medida em que o aperto na taxa de juros conseguir conter a pressão sobre os preços. “Eles são uma alternativa interessante para obter rentabilidade real no médio prazo”, afirma.

E os títulos indexados ao IPCA? Como a pressão inflacionária está pesando no cenário macroeconômico, esses títulos devem continuar em evidência, já que garantem o poder de compra do investidor em qualquer cenário. Por isso, são os investimentos mais indicados para quem busca a proteção do capital no longo prazo, carregando os papéis até a data de vencimento.

O lado ruim disso é que, quanto mais longo o papel, maior a volatilidade que ele carrega, o que abre espaço para grandes perdas em caso de resgate antecipado. “Por isso, em um cenário de tantas incertezas como o atual, os títulos de prazo mais curto são mais interessantes”, diz Gabriela. “Muitas pessoas não conseguem manter o investimento até o fim do prazo e acabam penalizadas pela marcação a mercado dos títulos.”

E os títulos prefixados? A opção pelos prefixados é mais óbvia nos ciclos de queda da Selic, porque nesses momentos a taxa na qual o investidor vai se travar tende a ficar mais vantajosa com o passar do tempo, na medida em que os juros do mercado baixarem. Agora, essa não é uma aposta tão simples.

“O prefixado pode tanto ter ganhos superiores aos demais como bem inferiores, e até mesmo apresentar juro real negativo. Tudo vai depender da velocidade com que o Copom vai elevar os juros e também da inflação do período”, resume Rondelli.

Coutinho diz que, em um cenário de incertezas no médio prazo, é mais seguro buscar papéis atrelados à Selic ou ao IPCA, mas o investidor pode encontrar algumas boas oportunidades em prefixados.

“Esses papéis são precificados diariamente de acordo com os juros futuros, e o mercado vem precificando um juro futuro maior que a Selic e a inflação do boletim Focus. Por isso, podem aparecer alternativas interessantes no curto prazo”, explica o especialista da Veedha. “Recentemente, tivemos CDBs pré para 2 anos com retorno de mais de 10% ao ano.”

Para o investidor com menos apetite a risco, ainda vale a pena manter algumas posições em renda variável, ou agora o spread em relação à renda fixa está ficando curto demais? “Sem dúvida ainda vale a pena, ainda existem boas oportunidades no mercado de renda variável. Mas o retorno mínimo exigido por esse investidor para tomar esse risco agora vai ser maior, já que o retorno livre de risco (a renda fixa) agora está remunerando mais”, responde Rondelli. “Isso acaba limitando a quantidade de empresas, ações e outros ativos que se encaixem nessa nova realidade. Com menos opções disponíveis, o investidor mais conservador naturalmente vai diminuir sua exposição à renda variável.”

Gabriela faz coro com ele e diz que, no novo patamar de taxa de juros, a renda variável continuará atrativa. Os níveis da Selic hoje ainda não são altos o suficiente para desencorajar o investimento no mercado de ações, mas apenas para diminuir a entrada excessiva de investidores iniciantes”, afirma.

Onde estará a Selic em dezembro? E em 2022? Os três entrevistados estimam que a Selic estará em 7% ao ano em dezembro. Gabriela acredita que esse patamar se manterá em 2022. Já a Veedha projeta uma taxa básica de juros em 7,5% no ano que vem. E Adriano diz que o mercado hoje já negocia essas expectativas a números mais elevados: 7,25% em dezembro e 8% no final de 2022.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).