O peso da inflação sobre o bolso das famílias depende muito da faixa de renda em que elas se inserem. Quanto menor o salário, maior a diferença no bolso quando os preços dos alimentos sobem, por exemplo. Já para a alta renda, a alta nos valores gastos com serviços, como educação e lazer, acaba importando bem mais.

Essa diferença é tão marcante que, durante a pandemia, quem ganha entre 10 e 40 salários mínimos no Sudeste do Brasil sentiu muito pouco, na média, da inflação de 2020. Segundo dados do Banco Central, a variação de preços dessa faixa de renda nessa região do país foi, em média, de 0,05% entre janeiro e setembro.

Há uma explicação para isso: o isolamento social imposto pelo coronavírus derrubou os preços dos serviços ao longo deste ano. E o setor, que inclui educação privada, viagens e alimentação fora de casa, entre outros, representa impressionantes 49% dos gastos dos brasileiros que moram na região mais rica do Brasil.

Todos esses segmentos dependem de circulação de pessoas, que foi seriamente comprometida com o avanço da infecção.

“Todos os serviços ligados à recreação, à hotelaria, serviços ligados à alimentação fora do domicílio, serviços pessoais, como cabeleireiros, tudo isso teve queda de preço porque a pandemia interrompeu”, explica a pesquisadora Maria Andreia Parente Lameiras, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Segundo cálculos do BC, no Sudeste houve deflação (queda de preços) de serviços para os mais ricos nos primeiros nove meses deste ano, de 1,6%.

“A inflação de serviços é mais baixa para a faixa de renda mais alta e, principalmente, no Sul e Sudeste, em parte pela maior participação de itens como passagem aérea, transportes por aplicativos e hospedagem, que foram impactados pela menor mobilidade”, explica a instituição no estudo.

Alta dos alimentos

Na outra ponta, quem ganha entre um a três salários mínimos no Nordeste sentiu a maior inflação do país: 3,18% no período. Para os nordestinos dessa faixa de renda, os gastos com comida representam quase 12%.

A forte alta nos preços dos alimentos, que foi causada pela alta das exportações de commodities e dólar valorizado, explica boa parte dessa diferença. Além disso, itens com peso importante no bolso dos mais pobres, como habitação e energia elétrica, estão ficando mais caros.

No caso do Norte Nordeste, segundo o Banco Central, o impacto do auxílio emergencial para a população foi muito maior, o que também ajudou a pressionar mais os preços dos alimentos.

“A análise evidencia inflação de alimentos mais elevada no Norte e no Nordeste, inclusive para a faixa de renda mais baixa, o que sugere algum efeito do auxílio emergencial a pessoas em situação de vulnerabilidade mais significativo nessas regiões sobre a demanda desses produtos”, avalia a autoridade monetária.

 

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