Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) – Um capítulo “arrobustado” dos quase 300 anos de história do café no Brasil virou filme, revelando detalhes da produção em terras amazônicas de Rondônia, cuja bebida de sabor singular tem potencial de ampliar presença nos mercados de grãos finos, aponta a Embrapa, produtora do documentário.

“Robustas Amazônicos – Aroma, sabor e histórias que vêm das Matas de Rondônia” busca revelar detalhes desse café canéfora, que, ao contrário do que alguns pensam, não se trata do conilon, como ele também é chamado no Brasil –são grãos botanicamente diferentes, com origens em regiões distintas da África.

O trabalho defende também que Rondônia –quinto produtor de café do Brasil e segundo da espécie canéfora (atrás do Espírito Santo, com seu tradicional conilon)– está adotando boas práticas socioambientais, após reduzir a área cafeeira em cerca de 75% nos últimos 20 anos e ao mesmo tempo aumentar a produção no período, com melhores técnicas agrícolas e investimentos.

O documentário, com cerca de 50 minutos de duração, lançado no YouTube nesta segunda-feira, destaca que o café das Matas de Rondônia tem um “terroir” que resulta em um grão diferenciado que justifica sua Indicação Geográfica, em estágio final de reconhecimento, segundo a Embrapa.

“As pessoas já conheciam as características maravilhosas do arábica, mas um canéfora fino poucas pessoas conhecem, porque não se trabalha em larga escala”, afirmou o pesquisador da Embrapa Enrique Alves, um dos maiores especialistas em robustas amazônicos, que participou da produção que pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=tG1xUSKZwbw&feature=youtu.be.

Alves disse acreditar que o robusta tem condições de ganhar maior espaço na crescente parcela de cafés finos do Brasil.

“Em uma década, eu acredito que o robusta terá o mesmo reconhecimento do arábica, porque a evolução é muito grande…”, disse ele, citando o desenvolvimento da cultura.

Rondônia tem hoje uma produção de cerca de 2,5 milhões de sacas de 60 kg, ainda distante dos maiores produtores como Minas Gerais, que colhe dez vezes mais. Mas há espaço para expansão. “Se imaginarmos que tínhamos mais de 300 mil hectares em 2001 e hoje apenas 70 mil, e ainda produzimos mais que no passado, para crescer seria apenas retomar aquelas áreas, ou mesmo ocupar áreas de pastagens e grãos”, argumentou engenheiro agrônomo.

A cafeicultura rondoniense é constituída em sua maioria por pequenos produtores de base familiar, que totalizam 17 mil propriedades, incluindo indígenas.

“Hoje em Rondônia não precisa desmatar mais nada, nem um hectare… Temos uma área muito grande a ser explorada, com baixa produtividade de outras culturas, que pode ser explorada no café “, disse no documentário a produtora Poliana Perrut.

“Para plantar o café, não precisa desmatar, o que tem na reserva já é suficiente para fazer um café de qualidade”, acrescentou o indígena Valdir Aruá, que produz café orgânico.

FUTURO E PASSADO

O setor produtivo ainda está apresentando à indústria as características do café fino de Rondônia, mas já há iniciativas no mercado para comercializar o robusta 100% amazônico. No ano passado, por exemplo, a gigante 3corações lançou microlotes do projeto Tribos, com grãos especiais cultivados por indígenas.

Em outro front, também em 2020, foi realizada pela indústria uma primeira prova comparada com cafés conilon do Espírito Santo, um trabalho que no futuro permitirá às torrefadoras escolher os grãos que mais convém aos seus consumidores.

“Vamos supor que o café amazônico tenha mais acidez que o do Espírito Santo. Se for uma empresa que quer mais acidez, ela procuraria o amazônico”, exemplificou Alves, da Embrapa.

Ao citar outra característica, ele destacou que, se o consumidor gosta de um café fino, mas não abre mão de uma bebida encorpada, o robusta é o ideal. “O canéfora tem o aveludado, então fica com sensação de ‘quero mais’, permanece por mais tempo no paladar”, disse o agrônomo, que aprecia tanto a bebida que resolveu se casar em um cafezal florido, no ano passado, e fez depois microlotes dos grãos colhidos no local.

O filme conta ainda a trajetória dos produtores e do café da região amazônica, que foi a porta de entrada para o cultivo no Brasil, em 1727. E como os canéforas migraram junto com cafeicultores capixabas, paranaenses e mineiros para o Norte.

Descreve ainda como o robusta passou a predominar sobre o conilon, já que os canéforas têm fecundação cruzada obrigatória, contando com um clima favorável para “hibridar” e tornar a produção de Rondônia mais “arrobustada”, como gosta de dizer o pesquisador, citando a pressão de seleção, ambiente e a opção do próprio produtor.

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