Diz o ditado popular que a diferença do remédio para o veneno é a dose. Na pandemia do coronavírus, o remédio para garantir a sobrevivência das empresas tem sido a injeção de recursos pelos bancos centrais. Na prática, isso significa que as autoridades monetárias estão liberando mais dinheiro para que os bancos emprestem para as empresas. Assim, elas podem continuar pagando seus funcionários e fornecedores, mesmo faturando menos.

Apesar de ser uma medida necessária e urgente, a liberação de crédito está acontecendo de forma sem precedentes. De acordo com um estudo elaborado pela consultoria britânica Oxford Economics, a dívida das empresas de países desenvolvidos poderia subir até 10 pontos percentuais, chegando a 95% do PIB. Nos países emergentes, incluindo o Brasil, o avanço tem sido de 10 a 20%. Os dados consideram apenas as dívidas de empresas que não fazem parte do setor financeiro.

O Brasil ocupa a 3ª posição entre os países que mais se endividaram. Entre fevereiro e abril, período analisado pela pesquisa, os débitos de empresas brasileiras cresceram quase 15%.

“Em parte, o endividamento é uma ferramenta saudável, porque permite que as empresas superem um período de baixas vendas. Por outro lado, o endividamento traz riscos potenciais para o crescimento, especialmente no longo termo. O resultado pode ser uma longa reestruturação dos balanços corporativos, o que pode prejudicar o avanço do investimento e da produtividade“, afirmou em relatório Adam Slater, economista da Oxford Economics.

O que isso tem a ver com o avanço do PIB? De acordo com o relatório da consultoria britânica, países que têm empresas muito endividadas tendem a crescer menos. Em um exercício, eles estimaram que um avanço de 10 pontos percentuais no endividamento corporativo tem o potencial de reduzir o PIB em 0,2 ponto percentual por ano. Pode parecer pouco, mas vale lembrar que mesmo antes da pandemia o Brasil estava crescendo a um ritmo de 1% ao ano.

Parte disso acontece porque empresas muito endividadas precisam direcionar boa parte dos recursos para pagamento do saldo ou do serviço da dívida. Sobra menos para investir, o que prejudica a capacidade de geração receita futuro — e  tudo isso vira um ciclo vicioso de crescimento menor.

Já vi isso em algum lugar… Na prática, é basicamente nesse ciclo que o Brasil estava preso antes da pandemia. O governo estava ampliando o endividamento para pagar despesas correntes, como o salário de servidores e os benefícios dos aposentados, o que deixava pouco espaço para investimentos em saneamento, infraestrutura e outros setores importantes. E essa situação corroeu a capacidade de crescimento do país.

O diagnóstico apresentado pelo estudo indica que o endividamento privado pode ser mais um fator contribuindo para que o Brasil cresça pouco nos próximos anos e, principalmente, pode ser um obstáculo no caminho da recuperação pós-pandemia. O estudo mostrou que em países emergentes, como o Brasil, empresas menos endividadas investem o dobro daquelas que têm muitas pendências financeiras.

E por que nos países emergentes o crescimento das dívidas tem sido maior? A subida do dólar no mundo todo é um importante componente dessa equação. “É provável que boa parte do aumento do endividamento das empresas seja resultado da rápida depreciação das moedas emergentes”, pontua o relatório da Oxford.

A exposição das empresas de países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, ao dólar já foi maior, especialmente nas décadas de 80 e 90. Mas o percentual de débitos em moeda estrangeira permanece alto, em torno de 30%, de acordo com a Oxford.

“Essa é uma das razões pelas quais nossas previsões de longo prazo mostram um crescimento do PIB bem menor do que o projetado antes da pandemia”, afirmou o relatório.

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