A base fraca de comparação é o que segura a previsão de que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro vai subir 5% neste ano. O que preocupa agora é como ficará o crescimento da economia em 2022. Motivos não faltam para acender o sinal amarelo: ao fraco resultado do segundo trimestre se soma um cenário de inflação em alta, crise hídrica e tensões políticas, além da própria questão de ser um ano eleitoral.

No ano passado, a economia brasileira encolheu 4,1%. Pelas previsões do último boletim Focus, o PIB deve avançar  5,22% em 2021 e 2% no próximo ano.

“O PIB vai ser positivo este ano porque a base de comparação é péssima. Mesmo agora no segundo trimestre, quando comparamos com o mesmo período de 2020, o crescimento foi de 12,4% porque o período foi muito afetado pela pandemia no ano passado”, afirma Reginaldo Nogueira, diretor-geral do Ibmec São Paulo e Brasília.

Como fica o PIB em 2022?

“Para 2022, o horizonte é de muitas dúvidas e desafios. Há um combate à inflação, mas certamente vamos ultrapassar o teto da meta em 2021. Também temos a crise hídrica, que dá combustível para alimentar a inflação. Outro desafio é o nível muito alto de desemprego, superior ao que tínhamos antes da pandemia”, afirma Fábio Astraukas economista e professor do Insper. A meta da inflação para 2021 é de 3,75% e de 3,5% para 2022.

Com a desvalorização constante do real e o alto preço das commodities, Nogueira diz que o BC (Banco Central) vai ser obrigado a aumentar mais a taxa básica de juros para controlar a inflação do país. O controle da inflação é um “remédio amargo” à economia, já que reduz o consumo e dificulta o acesso à crédito.

“O principal risco para o mercado é o resultado em 2022. Situações como as eleições e a crise hídrica podem impactar o crescimento no próximo ano”, afirma Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos.

A vacinação e o comportamento da pandemia são outros fatores que podem influenciar no resultado do próximo ano, isso porque afetam diretamente o setor de serviços, que é o que tem maior peso na composição do PIB.

“O que vai garantir a volta da economia e do emprego é o setor de serviços, que depende diretamente da capacidade das pessoas circularem. Precisamos manter o volume da vacinação para o setor consiga crescer de forma mais robusta. Se não conseguirmos garantir a aplicação da segunda dose na população, por exemplo, colocamos riscos para o crescimento do setor de serviços e a expansão da economia”, afirma Nogueira.

Como fica o PIB de 2021?

Para Fábio Astraukas, o PIB deve chegar na casa dos 5%. “Um crescimento entre 5% e 6% no ano vai significar que a economia conseguiu se recuperar das perdas do ano passado, mas na somatória do biênio (2020 e 2021) não conseguirá ter um crescimento considerável, bem próximo do que já vínhamos experimentando antes da pandemia, na casa de 1%”, afirma.

Já Nogueira diz que ficou  mais difícil chegar a 5% neste ano, porque o resultado de hoje já compromete o crescimento final. “Não foi uma variação tão grande no trimestre, estamos falando de uma estabilidade com -0,1%. Acredito que esse cenário mostra que vai ser mais difícil chegar a 5%, começando a sinalizar algo mais próximo de 4,5%”, afirma.

O que pode atrapalhar o resultado? Apesar dos economistas considerarem que o crescimento neste ano está praticamente garantido, algumas situações podem mudar o jogo. “Os freios que podem travar a retomada são a inflação em alta, paralisação de reformas, principalmente da tributária, instabilidade política e movimento do dólar, tanto neste ano quanto em 2022”, afirma Astraukas.

Outros desafios apontados por André Perfeito, da Necton, são a elevação da Selic, a inflação ao produtor muito acima da inflação ao consumidor, o que tende a diminuir as margens de lucro e, consequentemente, investimento, a crise hídrica, que afeta a inflação e o agronegócio, e a tensão política que cobra um prêmio de risco ao longo da curva de juros.

Considerando esse cenário, Perfeito mantém as projeções de PIB em 5% para este ano e entre 1,8% e 2% em 2022.

O que diz o governo federal? Nesta quarta, após a divulgação do PIB, o presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto, afirmou que os agentes de mercado devem revisar a projeção de crescimento para a economia brasileira um pouco para baixo.

A projeção oficial do governo federal é de 5,3% no ano e, em nota divulgada nesta quarta, o Ministério da Economia disse que mantém a projeção de um crescimento “superior a 5%” ao final do ano.

A pasta diz o crescimento deve ser sustentado pela aceleração do crescimento dos principais parceiros comerciais do Brasil (Estados Unidos e China), pela política monetária global e o aumento do preço das commodities, o elevado carrego estatístico para 2021 (4,9%), que é uma espécie de impulso deixado do último trimestre de um ano para o outro, a maior taxa de poupança para o segundo trimestre desde o início da série, mercado de crédito e de capitais em expansão e recuperação do emprego com a vacinação em massa.

Em contrapartida, a possibilidade de aprofundamento da pandemia e a crise hídrica são consideradas fatores de alerta.

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