Por Leonardo Benassatto

BRUMADINHO, Minas Gerais (Reuters) – Famílias das cerca de 270 vítimas do rompimento de uma barragem da Vale na cidade mineira de Brumadinho realizam protestos e vigílias nesta segunda-feira, quando o desastre mortal completa dois anos, aumentando a pressão sobre a empresa pela solução de conflitos legais.

O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais permaneceu em busca de 11 vítimas desaparecidas desde a grande onda de rejeitos de mineração que soterrou um refeitório lotado de trabalhadores da companhia, bem na hora do almoço, em 25 de janeiro de 2019. A tragédia atingiu também a cidade e áreas de floresta.

Atualmente, mais de 90 equipamentos pesados auxiliam o trabalho de busca de cerca de 60 bombeiros militares, que procuram vítimas sob a lama, que os bombeiros dizem ter até 15 metros de profundidade.

“A Vale destroçou, não só a minha família. Ela destroçou inúmeras famílias e a vida de muita gente. A gente hoje não sorri, a gente engana a tristeza”, disse à Reuters Atamaio Ferreira, que perdeu a irmã na tragédia.

A Vale reafirmou em comunicado na semana passada que continuará a cumprir integralmente sua obrigação de reparar e indenizar as pessoas, bem como de promover a reparação do meio ambiente.

“Até o momento, a empresa destinou cerca de 10 bilhões de reais para estes fins… A Vale reitera sua confiança no Poder Judiciário”, disse, em nota.

A mineradora e autoridades do Estado não conseguiram chegar a um acordo que buscava encerrar ações na Justiça e garantir reparações de danos morais coletivos e sociais, e compensações socioeconômicas, após várias rodadas de debates.

No último encontro, a Vale ofereceu um acordo de 29 bilhões de reais, enquanto autoridades de Minas Gerais exigiram pelo menos 40 bilhões de reais, segundo uma fonte próxima às negociações.

Após a reunião, o secretário-geral de Minas Gerais, Mateus Simões, deu um ultimato, dizendo que o processo seguiria em frente na Justiça caso não houvesse uma nova oferta da Vale que fosse “suficiente” até 29 de janeiro.

Em nota na semana passada, o banco de investimentos BTG Pactual disse que a falta de um acordo é uma situação em que todos perdem, já que atrasaria novos investimentos na região e aumentaria o risco de uma decisão ir aos tribunais.

O desastre de Brumadinho –que ocorreu poucos anos após o rompimento de barragem da joint venture Samarco (que pertence à Vale e à BHP,), em novembro de 2015– alertou à indústria de mineração e investidores para os perigos de milhares de barragens de rejeitos em todo o mundo, muitas das quais estão em mau estado.

A Organização das Nações Unidas (ONU), o Conselho de Pensão da Igreja da Inglaterra e o Conselho de Ética dos Fundos de Pensão Nacionais Suecos disseram nesta segunda-feira que formariam uma organização independente para fazer cumprir os padrões globais de rejeitos que o trio ajudou a escrever no ano passado.

O grupo pretende usar a ameaça de desinvestimento para persuadir mineradoras ao redor do mundo a aderir aos padrões, disse Adam Matthews, diretor de ética do conselho de pensão da Igreja da Inglaterra.

“Dissemos à indústria de mineração que não importa onde seja o próximo desastre de rejeitos, será ruim para todos”, disse Matthews.

Na noite de domingo, carros buzinando adornados com fitas pretas conduziram uma vigília para os mortos em Minas Gerais.

“Eu vivia muito bem com meu marido, com muito amor, com muita dignidade e a Vale veio e simplesmente arrancou tudo de nós”, disse Sueli de Oliveira, esposa de uma das vítimas. “Eu só quero justiça”.

(Reportagem adicional de Marta Nogueira e Ernest Scheyder)

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