Os pagamentos com QR Code existem já faz tempo no Brasil. Mas parece que só agora, em plena pandemia do coronavírus, os brasileiros se familiarizaram com essa tecnologia de pagamento. Até então, empresas de pagamento precisavam dar crédito para quem pagasse as compras com QR Code – essa era a estratégia mais comum para ganhar novos clientes.

Mas o jogo virou desde que as pessoas ficaram confinadas dentro de casa. Contando com programas de TV e lives musicais como principais meios de diversão, as pessoas aprenderam a usar o QR Code. Programas como o BBB20, que tinha entre seus patrocinadores o PicPay, ensinaram ao espectador a usar o QR Code para comprar comida. Enquanto assistiam às provas de liderança, o público tinha a opção de acessar o QR Code da Lojas Americanas para comprar produtos com descontos. No intervalo, o Burger King exibia QR Codes para quem quisesse disputar games em troca de lanches.

O BBB20 acabou, mas a cultura do QR Code continua em alta. As lives musicais transmitidas pelo YouTube recebem doações de dinheiro para ajudar pessoas afetadas pelo coronavírus. Basta usar o QR Code para fazer a doação, não importa o banco em que o doador tem conta. Igrejas que tiveram queda de doações passaram a transmitir missas pelas redes sociais. E adivinha? Uma forma de pedir doações é por QR Code.

O que explica esse sucesso? A explicação mais repetida é que ele é mais democrático que outras tecnologias de pagamento a distância, como o NFC, que exige que o usuário possua celulares mais caros. Já para usar o QR Code basta ter um celular com câmera.

“O QR Code é muito mais inclusivo, o NFC não funciona em todos os celulares. Cartão com contactless é coisa de elite”, diz Carlos Netto, CEO da Matera.

Por que o CR Code funciona tão bem para doações pedidas em lives ou missas? Gueitiro Genso, CEO do PicPay, atribui o sucesso à facilidade de uso. “Imagina se o padre pede a doação e aí a pessoa tem de abrir o app do seu banco, digitar o número da agência, número da da conta e do CNPJ da igreja. É muito complicado. Com o QR Code esse processo é todo simplificado.”

Segundo ele, o PicPay fez parcerias com a Cufa (Central Única das Favelas) para distribuição do dinheiro arrecadado para o projeto Mães da Favelas. “Essas mães recebiam cestas básicas. Com a pandemia, ficou complicado levar as cestas até elas. Com a parceria, elas abriram uma conta PicPay e receberam R$ 120 e podem comprar os itens que precisam.”

Outra vantagem do QR Code é que o pagamento é realizado a distância, sem necessidade de contato com cartões ou maquininhas. “Em um cenário de pandemia, pagar com Código QR preserva o distanciamento social, gerando um código que permite realizar pagamentos e transferência de dinheiro em diversas situações, o que garante mais segurança às transações”, diz Rodrigo Furiato, diretor de carteira digital do Mercado Pago.

Mas dá para dizer que aumentou o uso do QR Code? Na Cielo, os pagamentos com QR Code registraram um crescimento de 10% em março em relação a fevereiro. “A pandemia está mudando muito dos nossos hábitos, a forma de fazer pagamentos será um deles”, diz Paulo Caffarelli, presidente da Cielo.

Além de lives com artistas famosos e missas, que outros usos estão sendo dados ao QR Code? Genso, CEO do PicPay, diz que existem inúmeras oportunidades. Ele diz que já existe desde ambulante e mendigo recebendo por QR Code até artistas autônomos que precisam se remunerar com doações do público. “Vimos casos de atendente de posto de gasolina colocando uma placa de QR Code na frente do corpo e o cliente conseguia pagar de dentro do carro, sem nem precisar abrir o vidro.”

As empresas também se apropriaram do QR Code para divulgar seus produtos, caso do Burger King. “A gamificação foi uma maneira de nos apropriarmos de uma tecnologia utilizada pelo mercado como forma de interação e divertimento para os consumidores num cenário de isolamento social”, diz Thais Nicolau, diretora de vendas e marketing do Burger King Brasil sobre a ação no intervalo do BBB20.

O que vai sobrar de tudo isso depois do fim da pandemia? O QR Code vai continuar sendo utilizado? Carlos Netto, da Matera, diz que tudo que estamos vendo agora está servindo de aquecimento para o pagamento instantâneo, que deve começar em novembro deste ano.

“A partir de novembro, devem ter a estreia do PIX, o sistema de pagamento instantâneo do Banco Central, que vai funcionar por QR Code. Tudo isso é um baita aquecimento para o que vem por aí”, afirma Netto.

“A digitalização da economia deve sofrer um avanço de anos em apenas alguns meses, transformando definitivamente negócios em todos os setores e o comportamento dos consumidores”, diz Furiato, do Mercado Pago.

Isso significa que o pagamento com cartão em maquininhas vai acabar? Não, é muito cedo para isso. Genso, do Picpay, diz que o Brasil tem um parque instalado de maquininhas muito forte. Por isso, os pagamentos com cartão não acabarão da noite para o dia. Mas ele acredita na expansão acelerada dos pagamentos com QR Code.

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