Com a pandemia de coronavírus, a indústria de transformação vem sofrendo, desde o ano passado, dois choques de preços importantes: um das matérias-primas, que vêm se tornando cada vez mais caras, e outro da desvalorização do real, que aumenta ainda mais o custo de insumos importados.

Afinal de contas, quais os segmentos da indústria tendem a repassar com mais intensidade esse aumento para seus compradores, como o varejo? E quem repassa menos?

Em um estudo publicado no último Relatório Trimestral de Inflação, o Banco Central respondeu a essa pergunta, e calculou também a velocidade com a qual a indústria de transformação passa para a frente essa alta nos insumos. Veja abaixo as principais conclusões desse levantamento.

O repasse nunca é total

Uma das descobertas é que o repasse do custo das matérias primas nos preços cobrados de varejistas nunca é total, mesmo em atividades como alimentos, para as quais o peso dos insumos costuma ser bem maior. Em média, de acordo com o estudo, a indústria de transformação repassa 48% das suas altas de custo.

Para chegar a esses cálculos, o BC usou dados de estrutura de insumos, variação de preços e importações referentes ao período entre janeiro de 2005 a dezembro de 2020.

Abaixo é possível ver, na parte direita do gráfico, em azul, quais os segmentos que tradicionalmente repassam mais os aumentos nos custos (como alimentos, produtos químicos e têxteis) e os que repassam menos (madeira, impressão e produtos farmacêuticos).

Reprodução/ Banco Central

 

Em resumo, quanto maior a importância da matéria prima para a receita da indústria, maior o repasse. Há ainda os casos em que os preços são regulados, como no caso de produtos farmoquímicos e farmacêuticos, que é quem menos passa para frente o aumento de custos de insumos.

“Na indústria alimentícia, que em 2020 sofreu grande pressão de custos, o repasse se revela intenso. Por outro lado, nos segmentos farmoquímicos e farmacêuticos, a sensibilidade do preço ao custo se mostra muito pequena, o que em parte está ligado a regras de regulação de preços dos produtos farmacêuticos”, afirmam os pesquisadores do BC no levantamento.

O repasse é rápido

O estudo mostrou ainda que o repasse de custos com insumos é relativamente rápido, e que a maior parte dessa transferência para os preços no atacado acontece no espaço de três meses. A indústria de transformação, de acordo com o BC, repassa 66% da alta com matérias primas em um trimestre, e 90% após seis meses.

A conclusão, portanto, é que os choques ocorridos no ano passado já chegaram, em sua maioria, aos preços praticados pela indústria. Em 2020, o IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo, que mede a inflação no atacado), subiu 31,7%, de acordo com dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Em 2021, os preços da indústria continuam em alta: em fevereiro, essa inflação do atacado já acumula alta de 41,7% nos últimos 12 meses.

“O que vem sustentando esse IPA [Índice de Preços ao Produtor Amplo] alto é ainda algum repasse, que está acontecendo em bens intermediários e bens finais, e também combustíveis, como os aumentos recentes do diesel e da gasolina, que estão influenciando muito a inflação atual”, explica o economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV.

De acordo com ele, esse movimento deve se manter pelo menos até os dados de março. “Para abril, os últimos movimentos em combustíveis foram de queda, então não é provável que esse efeito continue, e finalmente poderemos ter algum arrefecimento da inflação”.

O comportamento do câmbio também é essencial nesse cenário. “É bem provável que se houver um bom comportamento da taxa de câmbio, ou seja, se o real não se desvalorizar tanto quanto em 2020, e se o preço da matéria prima em dólar parar de subir, tenhamos repasses menores neste ano. Mas ainda tem muita água para passar por debaixo da ponte”, pondera Braz.

 

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