Os estacionamentos em São Paulo sempre foram uma mina de ouro. Na Faria Lima, por exemplo, uma das áreas mais caras da cidade para parar o carro, mensalistas chegavam a desembolsar R$ 420 para guardar seus veículos enquanto trabalhavam.

Mas aí veio a pandemia e, como aconteceu com vários setores da economia, mudou tudo. As empresas entraram em teletrabalho e, além dos escritórios, os estacionamentos ficaram vazios. O faturamento deles? Muitos caíram a zero entre a segunda quinzena de março e o fim de abril.

“Não faturamos completamente nada por um mês e meio”, diz Camilo Leles, administrador da rede de estacionamentos Massis, com 14 unidades em São Paulo.

Na retomada, com a flexibilização da quarentena, as coisas melhoraram, mas muito pouco. “Em junho, faturamos um quarto do que normalmente faturávamos. Agora, em agosto, chegamos a um terço”, explica ele.

Isso porque muitas empresas continuam em home office total ou em esquema de rodízio (os funcionários vão uma semana ao escritório e na outra trabalham de casa). No futuro, segundo um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), 30% das companhias brasileiras devem manter o home office, mesmo com o fim da pandemia do novo coronavírus.

Embora os edifícios comerciais (escritórios) sejam 23% do faturamento do setor e 40% das vagas, não foi só o trabalho a distância que afetou os estacionamentos, uma indústria que no ano passado movimentou gigantescos R$ 16 bilhões em receita bruta anual, segundo a Associação Brasileira de Estacionamentos (Abrapark).

O fechamento dos shoppings centers e a fraca retomada do movimento nesses centros de compras (que respondem por R$ 4,1 bilhões dos ganhos – ou 26%) também abalaram as contas dessas empresas. Os valets, que atendiam em eventos, baladas e restaurantes, também foram paralisados e muitos ainda nem voltaram.

Com isso, as empresas de estacionamento estão passando por sua maior crise. “Tivemos que fechar quatro estacionamentos. Um deles, por exemplo, dependia do movimento de uma faculdade, de um restaurante e de uma casa de eventos. Tá tudo sem funcionar ainda”, diz Paulo Lemos, diretor comercial da rede Parkland, com 31 estacionamentos no Brasil todo.

Demissões

Em todo país, existem cerca de 40 mil empresas de estacionamentos que empregam 71 mil trabalhadores (em regime CLT), segundo o último levantamento de 2018.

A crise já vem provocando demissões, embora a associação do setor ainda não tenha uma estimativa de quantas pessoas foram desligadas. A Estapar, uma das maiores dessa área, teve prejuízo de R$ 58 mil ao final do segundo trimestre de 2020 e a receita líquida recuou 68% no intervalo de um ano. Por isso, a companhia realizou demissões e fechou estacionamentos. Mas não divulgou quantos estabelecimentos foram fechados ou quantas pessoas perderam o emprego.

“Só não demiti porque, como administro muitos estacionamentos de supermercados, essa diversificação de portfólio me ajudou a segurar os empregos”, conta Lemos, da Parkland.

Promoções

Em muitos casos, o preço dos estacionamentos caiu, numa tentativa de atrair clientes. “Baixamos em até 30% o valor. Inclusive para mensalistas”, diz Leles, da Massis.

São Paulo, segundo o último levantamento de preços desse mercado, feito em 2018, é uma das praças mais caras do Brasil. Na capital paulista, gasta-se pelo menos R$ 10 por hora nos principais bairros, e em média R$ 246 por mês, para deixar o carro no estacionamento, o que pode representar mais de R$ 2.000 no final de ano. No Jardins, uma das regiões mais caras, esse valor chegava a R$ 13 a hora.

Na Faria Lima, apesar da maioria das vagas estarem vazias, ainda se cobra R$ 420 mensais para quem precisa estacionar o carro.


 

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