Por Maytaal Angel e Gustavo Palencia e Sofia Menchu

EL LAUREL, Honduras/LA LAGUNETA, Guatemala (Reuters) – Os quatro filhos de María Bonilla e Esteban Funes embarcaram na traiçoeira jornada para o Norte, um deles de 10 anos, preferindo a vida de um migrante não autorizado na América a um cafeicultor na América Central.

“Se eu não tivesse minha mãe, também iria para os Estados Unidos. É melhor lá”, disse Bonilla, de 40 anos, que ainda está tentando vencer as adversidades e lucrar com a fazenda da família em El Laurel, nordeste de Honduras.

O café não compensa muitas das centenas de milhares de agricultores da América Central que produzem os delicados grãos de arábica dos melhores solos do mundo. Cada vez mais, eles estão desistindo, tornando-se parte de um fluxo mais amplo de migrantes para a fronteira EUA-México, que os dados dos EUA mostram que atingiu um recorde este ano.

Surtos de migrantes têm ocorrido periodicamente de partes da América Central, à medida que as fortunas oscilam no setor cafeeiro, do qual quase 5 milhões de pessoas na região – cerca de 10% – dependem para sobreviver, de acordo com o grupo intergovernamental SICA.

No entanto, este ano foi particularmente ruinoso, de acordo com entrevistas com cerca de uma dúzia de agricultores da região, os chefes de um instituto regional e três institutos nacionais do café, além de um executivo de uma associação internacional do café com sede nos Estados Unidos.

Os agricultores que acumularam perdas e dívidas por vários anos com a queda dos preços mundiais e a perda de negócios para o Brasil, agora foram inundados por um ressurgimento devastador da “Roya”, ou doença da ferrugem do café.

O fungo patógeno foi revivido pela intensa umidade trazida pelos furacões Eta e Iota, que devastaram a América Central no final de 2020, destruindo plantações e deslocando centenas de milhares de pessoas.

“Quando o café não vai bem, é quando você vê grandes migrações de Honduras, El Salvador, Guatemala, Nicarágua”, disse René León-Gómez, secretário-executivo do PROMECAFE, uma rede regional de pesquisa formada pelos institutos nacionais do café da América Central.

A produção na região, onde a colheita manual de café é um estilo de vida para muitos, caiu 10% desde o final de 2017 e deve cair ainda mais na próxima temporada. Isso significa que o mercado global de café se tornará mais dependente de produtores mecanizados de massa como o Brasil, e cada vez mais vulnerável a picos de preços se o clima extremo atingir as safras do país.

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