A economia brasileira pode estar demorando para engatar, mas a análise dos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indica que 2019 foi melhor que 2018. A reforma da Previdência foi aprovada em outubro passado e começou a valer. Mas a nota de risco do Brasil não teve melhora significativa, a situação fiscal não está resolvida e as empresas precisam provar seu crescimento e governança. São esses fatores que, somados à queda da inadimplência, atrairão o investidor estrangeiro, ainda bastante cauteloso com o Brasil.

A análise é de Edward Kuczma, da BlackRock, maior gestora do mundo, com cerca de US$ 7 trilhões de recursos administrados. Gerente de portfólio para o mercado de ações na América Latina, com mais de 15 anos de experiência avaliando empresas e economias da região, ele falou com o 6 Minutos sobre o atual cenário do dólar.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista por e-mail:

A evasão de dólares está crescendo e o real está desvalorizado. Isso é resultado dos problemas internos ou das incertezas globais?

Os juros na Europa estão negativos há meses e isso deixa o dólar mais forte diante de todas as outras moedas. Mas ele não ficará muito mais forte, o que deve ajudar na estabilidade do real. Agora, o cenário interno no Brasil importa: o crescimento da economia, a inflação e as taxas de juros são variáveis importantes para a valorização e a estabilidade do real, que também se beneficiará da redução da inadimplência e da aprovação das reformas.

No aspecto externo, o contexto de desaceleração global e riscos econômicos continuará influenciando as moedas da América Latina.

O Brasil aprovou a reforma da Previdência e está trabalhando em ajustes fiscais e tributários. O investidor estrangeiro percebe esses avanços?

A agenda de reformas é peça-chave para que a economia do Brasil consolide sua nova fase. A aprovação da reforma da Previdência foi uma conquista importante, mas outros avanços também são necessários. A relação entre gasto público e PIB (Produto Interno Bruto) está estável e a reforma da Previdência ajuda na consolidação de um novo regime fiscal, diferentemente do que se estendeu por anos, até que culminou na crise econômica de 2015. Entretanto isso ainda não é suficiente.

A chave para o crescimento está no setor privado e cabe aos legisladores criar condições para que o investimento privado aconteça.

Como essas percepções impactam a decisão de investimento no país?

Os investidores estrangeiros estão monitorando se as empresas respondem aos ajustes. O aumento do investimento pelas empresas e o crescimento do mercado de crédito serão métricas para entender a resposta das companhias. Em 2019, o cenário do crédito foi estimulado pela queda na taxa de juros, que permite às companhias refinanciar suas dívidas com juros menores.

A retomada da economia e a maior presença do investidor estrangeiro no país dependem da confiança do setor privado brasileiro. Isso deverá se dar pelo aumento nas contratações e investimento em parques fabris.

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