O mercado não tem dúvidas de que o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central vai aumentar a Selic para 9,25% ao ano na reunião desta quarta-feira (8). A dúvida é sobre como ficam o ritmo e dose do aperto monetário em 2022. As apostas para a taxa em dezembro do ano que vem variam de 10,25% a 12,25% ao ano.

O principal motivo é a inflação mais duradoura do que se esperava, o aumento do risco fiscal no Brasil, que tem ditado o tom do mercado financeiro nos últimos meses, e a variante ômicron da covid, que adicionou novas incertezas.

Quanto maior a inflação, maior a necessidade de aumento na taxa básica de juros. A dificuldade do Banco Central será dosar o remédio que controla a inflação sem ‘matar’ a economia. É que o mesmo juro alto que ajuda a controlar os preços, também reduz o consumo, dificulta o acesso à crédito e desacelera a já combalida economia.

O BTG Pactual digital considera que o BC está em uma situação delicada. “A encruzilhada do Banco Central está mais para o que fazer com a Selic no primeiro trimestre de 2022 do que nesta reunião de quarta-feira: qual a Selic que não deteriora demais a atividade econômica em 2022 e não piora a desancoragem das expectativas de inflação em 2023 e 2024? Esta é a resposta que o mercado irá procurar nas entrelinhas do comunicado na próxima reunião”, afirma em relatório.

Mauro Rochlin, economista e professor de MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que os dados de inflação de dezembro deste ano e janeiro do ano que vem serão primordiais para entender como o BC deve atuar na política monetária. “No ano que vem, a inflação acima do esperado em dezembro pode fazer o BC aumentar a Selic em 2022”, afirma Rochlin.

InstituiçãoProjeção para dezembro de 2021Projeção para dezembro de 2022
Asa Investments9,25%12%
Bradesco9,25%10,25%
BTG Pactual digital9,25%11,75%
C6 Bank9,25%11,75%
Credit Suisse9,25%12,25%
Guide Investimentos9,25%10,75%
Itaú9,25%11,75%
Órama Investimentos9,25%11%
Rico Investimentos9,25%11%
Santander9,25%12,25%
XP 9,25%11%

“Os núcleos do IPCA estão rodando acima de 10%, o que demandará do Banco Central manter o ritmo de aperto monetário por mais tempo. Desta forma, acreditamos agora que a Selic atingirá 11,50% no final do primeiro trimestre do ano que vem, nível significativamente acima do que estimamos como neutro (ao redor de 7,5%)”, afirma relatório da XP.

Para a casa, haverá espaço para um corte de 0,5 ponto percentual em 2022, fazendo com que a taxa termine o ano em 11%. A XP considera que a credibilidade do arcabouço fiscal foi comprometida e, por isso, “prêmios de risco e expectativas de inflação devem seguir pressionados adiante, especialmente em meio à uma campanha eleitoral em que o tema dos gastos públicos deve estar no centro das discussões”.

Para o Bradesco, a Selic deve chegar a 11,75% ao ano no primeiro semestre e ser reduzida ao patamar de 10,25% até dezembro de 2022.

O C6 Bank projeta que a Selic chegue a 11,75% no fim do ciclo de aperto monetário e assim permaneça até o final do ano. “A alta da inflação para o ano corrente aumenta a inércia para o ano que vem e as projeções indicam alguma desancoragem das expectativas para o horizonte relevante de política monetária”, afirma relatório do C6 Bank.

O Credit Suisse espera um aumento de 1,5 ponto percentual em fevereiro, elevando a taxa de 9,25% para 10,75%, 1 ponto em março, para 11,75%, e 0,5 ponto em maio, para 12,25%. “Como resultado da revisão, estamos ajustando a Selic de 2022 de 11,5% para 12,25% ao final do ano”, afirma relatório.

O Santander aumentou a projeção de 11,5% para 12,25% a Selic ao final de 2022, devido à inflação mais alta. Para o banco, o quadro fiscal adicionou mais riscos nos preços de ativos domésticos e contribuiu para a piora de condições financeiras.

A Órama Investimentos manteve a aposta de Selic em 11% ao ano para 2022. “Acreditamos que a progressão até essa taxa venha em efeito ‘escadinha’, uma espécie de sintonia fina do BC para avaliar o retorno à ancoragem, nesse momento perdida. Assim, estimamos a primeira alta em 1%, a segunda em 0,5% e a terceira em 0,25%”, afirma relatório.

Para a Asa Investiments, a aprovação da PEC dos precatórios deixa “o que era ruim, pior”, adicionando mais temor em relação a questão fiscal. “Já ressaltávamos há algum tempo que a incerteza fiscal e o desmanche do teto contrariariam uma atividade econômica muito fraca em 2022, em função do aperto das condições financeira”, afirma relatório da Asa.

Taxa final de 2021 é consenso

Na última reunião, realizada em outubro, o comitê aumentou a Selic em 1,5 ponto percentual e deixou claro que pretendia um ajuste da mesma magnitude, podendo ser ainda maior a depender do cenário macroeconômico.

“O Copom considera que, diante da deterioração no balanço de riscos e do aumento de suas projeções, esse ritmo de ajuste é o mais adequado para garantir a convergência da inflação para as metas no horizonte relevante. Neste momento, o cenário básico e o balanço de riscos do Copom indicam ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance ainda mais no território contracionista”, afirma comunicado.

Rochlin afirma que o fato da inflação estar mais alta do que a Selic é o que motiva a série de altas que estamos vendo.

“O que está acontecendo é que o Banco Central está correndo atrás da curva de juros. A ideia é que a gente tenha uma taxa de juros real positiva, que consiga desestimular o consumo e, dessa maneira, tentar segurar os preços. Como a inflação ainda está apresentado números muito ruins, o mercado aposta que a Selic deve fechar 2021 em 9,25% ao ano”.

O C6 Bank projeta alta para 9,25% ao ano, mas não descarta a possibilidade de um ajuste ainda maior, já que a inflação e os riscos fiscais mudaram bastante desde a última reunião – de lá para cá, houve a aprovação da PEC dos precatórios e a pesquisa Focus vem aumentado as projeções de inflação semana a semana.

O Credit Suisse manteve a projeção de que o Copom vai aumentar a Selic para 9,25% ao ano, já que o cenário econômico ainda se mostra pouco favorável, com a persistência da inflação e o aparecimento da variante ômicron da covid.

“Com o aumento da persistência da inflação nos países desenvolvidos, as condições financeiras globais ficam mais comprometidas e, consequentemente, aumentam o risco de inflação em países emergentes”, afirma relatório do Credit Suisse.

Para o banco, por um lado uma possível reversão da recente alta dos preços internacionais das commodities poderia diminuir a inflação. “Por outro lado, persiste a incerteza fiscal, agravada pela mudança na regra do teto de gastos. O Copom deve manter a incerteza fiscal no balanço de riscos, ressaltando que questões concernentes ao fiscal foram responsáveis ​​por parte da descentralização das expectativas de inflação para 2023 e 2024”, afirma relatório, assinado pelos economistas Solange Srour e Lucas Vilela.

O Itaú afirma que a pressão inflacionária segue “intensa e disseminada”, o que contamina as expectativas de inflação e as projeções do BC. “Acreditamos que a manutenção do ritmo de
ajuste de 1,5 ponto percentual e a elevação da Selic para patamar significativamente contracionista ajudarão no processo de desinflação, mesmo que não sejam suficientes para garantir a convergência da inflação para a meta em 2022”, afirma o banco.

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