O brasileiro nunca comprou tanto pela internet. Isolados dentro de suas casas, os consumidores que compravam online passaram a gastar mais ainda. E os que não compravam, descobriram as facilidades do e-commerce. Foram 7,3 milhões de pessoas que fizeram a primeira aquisição online da vida no primeiro semestre, segundo o Ebit.

Já deu para perceber que o comércio reabriu suas lojas físicas, mas as pessoas continuam consumindo pela internet. Pesquisas mostram que esse é um dos hábitos que devem continuar mesmo depois da pandemia.

“Estimamos que a pandemia tenha feito o comércio digital avançar três a quatro anos em três meses. De cerveja a hambúrgueres, e medicamentos a cosméticos, novos consumidores estão entrando no mundo do e-commerce”, afirma Luciana Piedemonte, diretora e líder de e-commerce da Kantar.

Por que isso vem acontecendo? Para Flávia Ávila, especialista em economia comportamental e fundadora da consultoria InBehavior Lab, comprar na loja física hoje não traz a mesma sensação de segurança e relaxamento que as pessoas tinham antes.

“As pessoas ainda têm receio de sair de casa. O cérebro entende que existe um risco, por isso a sensação não é mais a mesma. As pessoas que decidem ir ao shopping compram o que precisam e vão embora. Não passam horas passeando e experimentando roupas, até porque alguns provadores estão fechados ainda”, afirma ela.

A sensação de recompensa que comprar na loja física traz foi transportada para o mundo digital? Uma pesquisa da Ipsos feita para o Google mostra que, para 54% dos brasileiros, fazer compras online distrai e alivia o estresse.

“Mais da metade dos brasileiros declarou que fazer compras online distrai e alivia o stress. É quase como experimentar o que antes seria um passeio no shopping, mas de dentro de casa, navegando pelos sites e lojas”, afirma o José Melchert, head de negócios para Varejo do Google Brasil.

Esse novo comportamento é uma espécie de compensação. “A pessoa pensa: já estou em casa, com tantas restrições, mereço ou preciso comprar. E esse prazer é ainda mais fácil de ser satisfeito pela internet, basta um clique”, diz Flavia.

Para Jean Rebetz, sócio-diretor da Gouvêa Consulting, por trás desse sentimento de indulgência (merecimento) existe o desejo de melhorar a qualidade de vida. “O consumidor deseja uma evolução de vida, deseja realizar um sonho.”

Mas Luciana, da Kantar, vê outros motivos para esse comportamento. “Durante a pandemia, os consumidores ultrapassaram as barreiras que tinham anteriormente em relação ao e-commerce e estão aprendendo que este é um canal confiável, conveniente e que entrega uma experiência diferente e complementar à compra em lojas físicas.”

O consumidor recebe mais estímulo na compra online? Muito mais. “Existem mecanismos que incentivam a pessoa a gastar, como oferecer 50% de desconto, frete grátis, compre 3 e ganhe 1. Tudo isso interfere na forma como o consumidor age”, diz Flavia.

Rebetz afirma que a experiência de compra online pode ser ainda mais rica que na loja física. “Além de passear pelas lojas virtuais, ele tem uma experiência enriquecida por outras mídias sociais. Ele procura um móvel e consegue pegar referências de decoradores, arquitetos.”

Mas essa interação com outras redes sociais traz outro efeito. “O consumidor vê que está todo mundo comprando aspirador robô, ele passa a pensar se precisa de um também”, diz Flávia.

Por que as pessoas compram online? Um levantamento da Kantar mostrou que a principal motivação é encontrar mais ofertas. Veja abaixo:

  • Encontrar mais ofertas: 75%
  • Economizar tempo: 67%
  • Tenho uma boa experiência: 62%
  • É mais conveniente: 60%

“Ter uma boa experiência de compra, desde a busca pelo produto correto, navegação na loja online até a facilidade, opções e segurança de pagamento é importante para que os carrinhos não sejam deixados para trás”, diz Luciana Piedemonte, da Kantar.

Como não cair em tantas armadilhas para comprar mais e mais? Flavia diz que a principal dica é o autoconhecimento. “Com autoconhecimento, a pessoa sabe como pensa e toma suas decisões de compra. Ela pode olhar para trás e identificar que decisões não foram legas, o que a fez decidir daquela forma”, diz Flavia.

Mas existem algumas recomendações práticas para quem quer evitar os apelos do e-commerce:

  • Evite deixar o cartão de crédito salvo no app ou site (digitar o número faz a pessoa pensar se precisa mesmo daquele produto);
  • Não teste grátis nada por 7 dias antes de comprar (dificilmente alguém vai desistir da compra depois de testá-la por 7 dias);
  • Crie um tempo de espera para comprar de 6 horas (se depois desse tempo ainda desejar aquele item, e tem dinheiro para pagar, então compre).

“Seja realista. Na hora de comprar, podemos agir como crianças que não sabem esperar. E acabamos pedindo uma comida ou comprando um presente que nem precisávamos”, afirma a especialista em economia comportamental.

Essa tendência de compra online continuará forte após a pandemia? José Melchert, do Google, diz que é difícil prever o comportamento futuro. “O que podemos afirmar é que esse momento complexo que vivemos fez com que boa parte dos brasileiros, de fato, atravessassem a fronteira que os separava dos canais de compra digitais. O brasileiro adotou um novo jeito de comprar e está cada vez mais confortável com ela. “

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).