As sanções impostas pelos EUA e o colapso da indústria do petróleo estão levando a Venezuela a acelerar seus esforços na mineração de ouro, inclusive em áreas protegidas da Amazônia. A quantidade de terra usada para mineração mais do que triplicou desde março do ano passado, de acordo com um estudo da organização local sem fins lucrativos Wataniba. A garimpagem deve se intensificar ainda com as autorizações, feitas em abril, de novos lotes em cinco rios.

A Venezuela já tem uma próspera indústria de ouro ilegal que devasta cursos de água, florestas e comunidades indígenas e financia grupos armados violentos. Agora, as autoridades passaram a auxiliar no fornecimento de equipamento para estabelecer operações mais formais que processam ouro em instalações estatais e vendem diretamente o metal ao governo, segundo informaram fontes da Bloomberg com conhecimento do assunto. O trabalho continua mesmo em meio a bloqueios rígidos e escassez de combustível no resto do país.

As sanções dos EUA e anos de investimentos insuficientes reduziram a produção de petróleo venezuelana ao nível mais baixo desde os anos 1940. Isso fez do ouro uma fonte importante de receita para o presidente Nicolás Maduro, que recorreu à venda de reservas do metal para aliados como Irã e Turquia enquanto luta nos tribunais internacionais pela repatriação de ouro detido no exterior. Com a perspectiva de operar em áreas praticamente sem lei do país, ambiente inóspito para gigantes mineradoras globais, Maduro busca desenvolver uma indústria doméstica sem muita regulação por parte do governo para explorar os preços em alta do ouro.

“As áreas de mineração na Amazônia venezuelana cresceram de forma caótica, mesmo em áreas próximas a cidades e vilas”, disse Tina Oliveira, diretora amazônica da Wataniba, que realiza trabalhos socioambientais na região.

Com certeza, o número de minas diminuiu. Mas isso acontece porque muitas operações se fundiram. Um estudo de satélite realizado por Wataniba mostra que a área de exploração cresceu para 116.655 hectares (288.261 acres ou cerca de 160.000 campos de futebol) em março deste ano, em comparação aos 33.926 hectares um ano antes.

De 2016, quando Maduro estabeleceu o Arco de Mineração do Orinoco com 11,2 milhões de hectares, até os últimos números oficiais, em 2018, as compras de ouro estatais cresceram 15 vezes, para 9,7 toneladas.

O governo diz que a mineração nas novas áreas se concentrará na extração de ouro das areias despejadas nas margens dos rios nos últimos 120 anos de exploração ilegal.

“Nossas políticas estão focadas no uso de novas tecnologias para reduzir a degradação ambiental irreversível”, disse o ministro das Minas, Gilberto Pinto, que é vice-almirante da Marinha, à televisão estatal no dia 3 de agosto. “As cláusulas de remediação em nossos contratos de joint venture são muito rigorosas”. Pinto não respondeu aos pedidos de comentários adicionais da Bloomberg.

Parlamentares de oposição, como Olivia Liendo, dizem que o crescimento do arco de mineração permite que o governo administre minas ilegais ligadas a gangues, em vez de fechá-las.

“O regime distribuiu muitas áreas de mineração para seus aliados, que extraem ouro e dividem a produção com o governo, depois o enviam para o exterior”, disse Liendo.

Américo De Grazia, ex-prefeito da região mineira de Piar, pretende tratar do assunto nas Nações Unidas, disse ele da Itália, onde vive no exílio.

O ouro extraído por pequenos operadores e joint ventures é enviado pelo governo ao Irã, Turquia e Caribe em operações comerciais que provocaram as sanções dos EUA a Maduro.

Novas máquinas de mineração e britagem, bem como contêineres usados como escritórios, estão sendo enviados sob custódia oficial de segurança para a região, disseram pessoas com conhecimento do assunto, pedindo para não serem identificadas por medo de represálias. O material é enviado para processamento no complexo Manuel Piar em Ciudad Guayana, administrado pela estatal Corporacion Venezolana de Mineria, e protegido pela polícia de inteligência e militares.

A mineração está invadindo parques nacionais e áreas protegidas, incluindo os arredores do Salto Ángel, de acordo com várias ONGs e a Assembleia Nacional Venezuela, que é liderada pela oposição. Alguns grupos indígenas migraram para o Brasil por causa da poluição da água e do desmatamento decorrente da mineração, segundo a ONG Kape Kape.

A escassez de gasolina, que provoca racionamento nacional rigoroso desde março, não interrompeu a mineração na Venezuela. O combustível nas áreas de mineração é vendido por US$ 5 o litro, o valor mais alto do país, disseram as pessoas.

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