Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) – A Cooxupé, maior cooperativa e exportadora de café do Brasil, revisou para baixo em quase 20% sua projeção de embarques em 2021 por problemas logísticos, e está encerrando o ano com despacho atípico de “big bags” direto no navio para atenuar o impacto da escassez de contêineres nas vendas externas.

“Foi um ano em que devemos ficar bem aquém do que esperávamos nos embarques… este foi o grande vilão do ano de 2021”, afirmou o presidente da Cooxupé, Carlos Augusto Rodrigues de Melo, em entrevista à Reuters, referindo-se à escassez de contêineres e alta dos custos do frete marítimo.

Antes do problema logístico se acentuar, a expectativa da Cooxupé era embarcar 7,2 milhões de sacas de 60 kg, das quais 6,5 milhões de sacas seriam de exportação, estimativas que caíram agora para embarque de 5,8 milhões de sacas, sendo 4,8 milhões de sacas ao mercado externo.

Com isso, os embarques totais (mercado externo e interno) ficarão 19,4% abaixo do previsto inicialmente e também recuarão na comparação com os 5,9 milhões de sacas de 2020, quando o Brasil colheu sua maior safra da historia.

Ele comentou que a safra menor pelo ciclo bianual do arábica reduziu os recebimentos de café pela cooperativa, conforme o esperado, mas o fator para a revisão de embarques é mesmo a questão logística.

Melo lembrou que a cooperativa costuma exportar maiores volumes em anos de baixa produtividade, como em 2021, para aproveitar os preços melhores. Mas o movimento foi frustrado pelos gargalos logísticos.

A pandemia é um dos fatores por trás da crise dos contêineres, cujos fluxos entre importações e exportações se alteraram à medida que lockdowns afetaram as atividades.

Buscando contornar o problema, o presidente da Cooxupé disse que a cooperativa participará do primeiro embarque de café em “big bags” de cerca de mil quilos neste ano, previsto para o próximo sábado.

“Vai no porão do navio, consegui um embarque, mais de 100 mil sacas, é uma maneira de driblar o preço do contêiner e a ausência do contêineres”, explicou.

“No passado se fazia exportação em sacas de estopa, hoje, mesmo que ensacado, vai em contêiner”, disse ele

Ele explicou que, normalmente, o contêiner recebe o café em sacas, a granel ou “big bags”.

Questionado sobre novos embarques diretamente no navio usando os grandes sacos, Melo disse que está “aparecendo outra oportunidade”, com outras empresas interessadas.

MENOR RECEBIMENTO

No ano passado, a Cooxupé teve o maior recebimento de café da história, totalizando 8,1 milhões de sacas, das quais 6,6 milhões entregues somente pelos cooperados. Mas, com a quebra de safra, o volume deve ficar cerca de 2 milhões de sacas abaixo em 2021.

“Esperávamos uma quebra, o que daria em torno de 6 milhões sacas de recebimentos (em 2021), de cooperados e terceiros”, afirmou ele, acrescentando que os cooperados deverão entregar volume de cerca de 4,5 milhões de sacas.

A Reuters publicou anteriormente que a cooperativa estava entre os compradores que tiveram problemas com cafeicultores que deixaram de entregar o produto previamente vendido, após uma disparada das cotações.

Mas o presidente não entrou em detalhes, afirmando que a Cooxupé atingiu suas metas de originação e que a safra teve qualidade muito boa, apesar de menor.

Segundo Melo, é importante que o problema logístico seja resolvido em breve, uma vez que a cooperativa precisa abrir espaço nos armazéns, para a safra de 2022, quando ele acredita que a produção será maior do que em 2021.

“2022 não será uma safra recorde, podemos ser taxativos… Mas deve ser maior que 2021, mas não muito”, disse ele, lembrando dos impactos da seca e das geadas.

Ele afirmou que não é possível estimar a próxima safra ainda, o que poderia ficar mais claro em janeiro e fevereiro, mas comentou que o pegamento dos chumbinhos não foi o ideal.

“Veio florada muito grande, muito bonita, mas o tempo não ajudou, o efeito de seca, altas temperaturas e chuvas em momento não propício causaram queda desses chumbinhos muito grande.”

A colheita de café arábica em geral começa entre maio e junho.

Para o próximo ano, ele disse que os produtores de café também serão impactados pela alta de custos, além de uma oferta apertada de adubos e defensivos, que tem preocupado o setor agrícola de forma geral.

Ele afirmou também que, se antes o produtor travava o preço do café a 800 reais a saca, agora pode travar a 1.400 reais, mas os custos, como fertilizantes, subiram muito, mais que dobrando em relação aos 2.800 reais por tonelada da safra anterior.

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