O Ibovespa começou 2021 batendo seu recorde histórico e chegou a fechar acima de 125 mil pontos no início do mês. O dólar também iniciou janeiro ainda alto, mas um pouco mais contido, com muita gente apostando em desvalorização da moeda americana no curto prazo.

Mas na semana passada o jogo virou. A divisa dos EUA encerrou a semana com alta de mais de 3%, com o real voltando a amargar o pior desempenho do mundo, enquanto a bolsa caiu 2,4%, devolvendo os ganhos do ano.

Afinal, o que mudou? O mercado teve uma espécie de choque de realidade em torno da situação da pandemia no Brasil, com notícias sobre o forte aumento de casos de coronavírus no país e de atrasos na chegada de insumos para vacinação em massa dos brasileiros , o que provocou desconfiança.

Isso mexe com os preços dos ativos brasileiros: se a imunização de uma parcela significativa da população demorar muito a acontecer, a normalização da economia também será mais lenta, elevando a necessidade de mais estímulos para programas sociais.

Além disso, a queda na popularidade do presidente Jair Bolsonaro, evidenciada em algumas pesquisas divulgadas ao longo da semana, aumenta essa pressão, com os candidatos à presidência da Câmara e do Senado apoiados pelo núcleo próximo governo dando declarações favoráveis à extensão do auxílio emergencial.

A insatisfação com o governo vem atingindo níveis elevados, e o risco de um impeachment (apesar de ser quase consenso que não há clima no Congresso para isso), está maior.

Para coroar uma semana difícil, na sexta (dia 22) o Estado de São Paulo, que responde por um terço do PIB (Produto Interno Bruto) endureceu as restrições ao funcionamento de bares, restaurantes e comércios não essenciais.

“O mercado estava otimista que haveria um bom ritmo de vacinação. Por isso o mau humor com as notícias”, aponta Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da FGV-SP.

Na semana passada, circularam informações de como as relações diplomáticas ruins do Brasil com China e Índia no governo Bolsonaro estão ajudando a atrasar a importação de insumos e vacinas.

Para Marçal, o risco de uma segunda onda forte sem imunização está no horizonte. “A urgência da vacinação é para salvar vidas e facilitar o trabalho de contenção dos danos econômicos. Enquanto houver risco de volta do incêndio não dá para começar a reconstruir o prédio”, avalia.

Juros não ficarão baixos para sempre

A preocupação com a lentidão no processo de imunização no Brasil aconteceu em meio a outro acontecimento que estimula o pessimismo do mercado.

Como esperado pela maior parte dos analistas, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) manteve os juros básicos da economia brasileira em 2% ao ano. Mas o comunicado que acompanhou a decisão abriu caminho para uma alta da taxa, se necessário.

Com as projeções para a inflação aumentando semana a semana, o comitê informou que deixará de se guiar pelo chamado forward guidance, ou orientação futura, instrumento de política monetária implementado em agosto de 2020 em que o BC sinalizou que manteria os juros baixos, desde que as expectativas de inflação não subissem demais.

Muitos analistas já apostam em uma alta dos juros básicos já no próximo encontro do Copom, em março.

“Todos esses ruídos encontram escape em dois lugares: no câmbio e nos juros. As apostas começam a subir nos contratos de vencimento mais curto, sugerindo que o Banco Central deve sim subir os juros já na reunião de março”, apontou André Perfeito, economista-chefe da Necton.

Um aumento na taxa tende a segurar a recuperação da economia brasileira. A estimativa de analistas ouvidos semanalmente pelo boletim Focus, do BC, é de uma alta de 3,45% do PIB neste ano.

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