Por Leonardo Benassatto e Lisandra Paraguassu e Eduardo Simões

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) – Caminhoneiros realizavam protestos em 14 Estados no final da manhã desta quinta-feira e em cinco deles –Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina– havia interdições da pista, informou o Ministério da Infraestrutura.

A mobilização dos caminhoneiros acontecia apesar de um áudio enviado às lideranças pelo presidente Jair Bolsonaro, pedindo o fim dos atos por receios de que agravem a inflação e a já débil situação econômica.

Além do apelo por áudio, Bolsonaro, que tem nos motoristas de caminhão uma importante base de apoio, tinha reunião prevista por videoconferência ainda nesta quinta com lideranças da categoria em busca de parar os protestos.

A autenticidade da fala de Bolsonaro foi confirmada pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, mas ainda assim lideranças dos caminhoneiros duvidavam da veracidade ou apontavam que o pedido foi protocolar, apenas porque, como presidente, Bolsonaro não poderia apoiar abertamente o movimento.

De acordo com boletim divulgado pelo Ministério da Infraestrutura às 11h, além dos Estados onde há bloqueio de pistas, existem mobilizações com abordagem de motoristas em estradas de Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Rondônia, Pará e Roraima.

No Rio de Janeiro, embora não existissem bloqueios de pista, a lembrança da greve dos caminhoneiros que paralisou o país em 2018 provocou filas em postos de combustíveis de motoristas temerosos com a possibilidade de um desabastecimento, como ocorreu há três anos. Naquele Estado, lideranças dos caminhoneiros prometiam novos atos ainda nesta quinta e na sexta.

A Polícia Rodoviária Federal está nos locais onde há protestos e atuando para liberar os trechos onde ocorrem interdições.

Na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, cerca de 40 caminhões ocupam a pista desde o feriado do Dia da Independência, na terça-feira, quando em manifestações convocadas pelo presidente, Bolsonaro repetiu ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ameaçou a corte com uma ruptura institucional. A Polícia Militar negociava a retirada dos caminhões.

Além das pautas colocadas por Bolsonaro –impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e defesa do voto impresso– os caminhoneiros colocaram também as suas nos atos desta quinta, centradas na queda do preço dos combustíveis e comprando a versão propalada por Bolsonaro de que alta nos preços é responsabilidade do ICMS cobrado pelos Estados.

Em uma tentativa de desmobilizar a categoria, Bolsonaro lembrou em áudio que a paralisação dos caminhoneiros pode agravar a inflação, que tem sido determinante na queda de popularidade do presidente apontada por pesquisas de opinião.

“Fala para os caminhoneiros aí, são nossos aliados, mas esses bloqueios aí atrapalham a nossa economia, isso provoca desabastecimento, inflação. Prejudica todo mundo, especialmente os mais pobres. Então dá um toque aí nos caras, se for possível, para liberar, tá ok, para a gente seguir a normalidade”, disse o presidente em um áudio enviado por mensagem a interlocutores da categoria.

Entretanto, o apelo do presidente não surtiu efeito até o momento. Mais cedo, às 8h30, o Ministério da Infraestrutura afirmou que não haviam interdições nas estradas federais, mas esse cenário mudou com bloqueios em cinco Estados no final da manhã.

“Primeiro que ele como presidente da nação não poderia tomar partido, até porque prejudicaria o nosso próprio movimento. O nosso movimento é livre, são pais de família e mães de família aqui, da área do caminhão, da área da agricultura, que decidiram parar porque não aguentam mais”, disse a caminhoneira Claudia Isabel, que participava do bloqueio pela manhã na rodovia Régis Bittencourt, na altura de Embu das Artes (SP). A pista foi posteriormente liberada por volta das 7h30.

“Não é porque ele (Bolsonaro) falou ou deixou de falar, a gente está lutando por um país melhor”, acrescentou.

PREJUÍZOS

Na Régis Bittencourt, motoristas que não faziam parte do movimento foram coagidos a parar na estrada sob ameaças.

“Na verdade me obrigaram a parar aqui. Aí furaram o meu pneu e estou aqui esperando chegar o socorro”, disse Bruno Rodrigues dos Santos.

“Eu estou revoltado, se fosse uma paralisação que tivesse algum benefício, mas não, estão prejudicando os próprios irmãos de estrada. Estão deixando a gente no prejuízo, isso não é uma coisa certa de se fazer, se fosse para fazer, que fosse pacífico”, disse.

Rodrigues afirmou que além do custo do pneu furado, perdeu o frete da entrega que faria em Curitiba e a possibilidade de uma segunda viagem que iniciaria ainda nesta quinta.

No áudio enviado na noite de quarta, Bolsonaro disse ainda que cabe a ele negociar com autoridades para resolver o problema da categoria, mas não citou especificamente o preço dos combustíveis.

“Deixa com a gente aqui em Brasília agora. Não é fácil negociar, conversar por aqui com outras autoridades, mas a gente vai fazer a nossa parte, vamos buscar uma solução para isso, tá ok? E aproveita aí e da um abraço em meu nome em todos os caminheiros, tá ok?”, disse o presidente.

Antes de se tornar mais um risco para o governo, o movimento dos caminhoneiros foi usado por bolsonaristas como o cantor Sérgio Reis como uma ameaça de parar o país para que reivindicações do grupo fossem atendidas. Em um vídeo, Reis foi filmado dizendo que os caminhoneiros iriam parar o país até que o Senado aceitasse o impeachment de Alexandre de Moraes.

(Reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro, e Eduardo Simões, em São PauloTexto de Eduardo SimõesEdição de Roberto Samora e Maria Pia Palermo)

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