Você se lembra quando foi a última vez que trabalhadores do setor público, privado ou estatal entraram em greve?

Vai aqui uma breve recordação: funcionários dos Correios fizeram uma paralisação de oito dias em setembro, mas a adesão não foi total. Petroleiros fecharam uma negociação de última hora e suspenderam a mobilização que tinham marcado para o final de outubro. Tirando a paralisação dos caminhoneiros, liderada por motoristas autônomos em maio de 2018, faz tempo que sindicatos de classe não param o país. Números do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) comprovam esse movimento. No primeiro semestre de 2019, aconteceram 529 greves, uma queda de 41,16% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esse não é um fenômeno recente. Em todo o ano de 2018, foram deflagradas 1.453 paralisações, uma diminuição de 31,27% na comparação com 2016, o ano com mais greves da pesquisa do Dieese. Desde 2017, entretanto, esse total não para de cair.

O que explica esse fenômeno? Dá para dizer que a queda foi motivada pela crise econômica? Rodrigo Linhares, técnico do Dieese e responsável pela pesquisa, diz que não dá para associar diretamente o número de greves com um único indicador econômico. A disposição de parar tem muito a ver com o momento econômico e a taxa de desemprego. Mas nem sempre esses movimentos acontecem ao mesmo tempo. Por isso, segundo ele, pode haver descasamentos: a economia ir mal e o número de greves subir.

“O número de greves foi bem alto nos anos de 2012, 2013 e 2014. Apesar dos sinais de negativos da economia, os trabalhadores ainda tinham uma expectativa de crescimento sustentável e por isso faziam greves para corrigir injustiças sociais e as condições de trabalho”, diz.

Mas o que fez esse número começar a cair então? Em total descasamento com a situação econômica, o número de greves ainda subiu em 2016 e entrou em trajetória de queda a partir de 2017. “Quando o trabalhador reconheceu que a situação era mais grave, ficou menos propenso a fazer greve”, diz Linhares.

A elevação da taxa de desemprego acrescentou um elemento a mais para inibir a decisão do trabalhador de entrar em greve. “Os trabalhadores começaram a ver seus colegas serem demitidos e não conseguir uma nova colocação. Em uma situação de desemprego menor, o cara é demitido, mas logo arruma outra coisa, por isso não é um grande problema ser mandado embora”, afirma o técnico do Dieese.

O que vem motivando as greves agora? Segundo ele, são situações mais graves, como atraso de salário e descumprimento de direitos. “A pessoa já é terceirizada, está há meses sem receber, se ela parar não vai perder muita coisa”, diz Linhares.

O que mais mudou no perfil da greve? No setor privado, mudou o perfil de quem faz as greves. Nos momentos de maior de número de greves, as paralisações eram lideradas por trabalhadores da indústria. Agora, os funcionários do setor de serviços são os que mais param. Olhando por grupos, as greves eram lideradas antes por trabalhadores do setor privado, mas agora quem predomina são os do setor público.

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