Por que parou, parou por quê? Não chega a ser exatamente uma parada, mas uma pisada no freio do consumo. Indicadores especiais de atividade mostram que as vendas no varejo caíram em novembro, interrompendo uma sequência de altas iniciada entre abril e maio. Esse comportamento é reflexo da preocupação do brasileiro em criar uma poupança precaucional para enfrentar possíveis dificuldades em 2021.

“Esse consumidor comprou bens duráveis e não duráveis, porque precisava adaptar sua casa para o home office e para ficar mais tempo em isolamento. Com o início da flexibilização, houve uma migração do consumo de bens para o de serviços. Mas o que está acontecendo agora é uma postergação do consumo”, afirma Viviane Seda Bittencourt, coordenadora das sondagens do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

Como assim? Sondagem de outubro do FGV Ibre mostrou que 60% dos consumidores estavam postergando o consumo de bens e serviços. “Se o consumidor está postergando o consumo, ele está fazendo o quê com o dinheiro? Na sondagem de novembro perguntamos se estavam fazendo poupança e mais de 40% afirmaram que sim e que faziam isso por conta da pandemia”, diz Viviane.

Por que as pessoas estão poupando? O brasileiro está muito inseguro sobre como ficará sua situação econômica em 2021. “Ele tem medo do desemprego, e do fim dos benefícios pagos pelo governo. Os que retornarem para o mercado de trabalho sabem que encontrarão uma situação difícil, pois as empresas não estão contratando. Enquanto essas incertezas persistirem e ele não tiver segurança para comprar, deve seguir poupando”, diz a coordenadora.

Para o vice-presidente financeiro da Getnet, Gustavo Bahia, houve uma acomodação do comportamento de consumo. “Grande parte dos benefícios que estão vigentes até o fim deste mês foram direcionadas para o consumo de bens duráveis. Com a flexibilização e volta de velhos hábitos, houve redução do consumo que ajudou a sustentar o comércio no pós-pandemia.”

O brasileiro vai continuar poupando ou vai gastar essas reservas? De acordo com a sondagem, 73% dos consumidores que conseguiram poupar pretendem manter estes recursos de reserva nos próximos meses. Outros 25% pretendem gastar parcialmente e apenas 1,4% quer gastar totalmente essa reserva.

Quando essa poupança será utilizada para o consumo? Só 24,5% disseram que vão torrar o dinheiro no próximo mês. Enquanto 22% afirmaram que gastarão o dinheiro no período de três a seis meses, outros 17,1% disseram que vão fazer após seis meses.

Qual vai ser o destino desse dinheiro? Depende muito da faixa de da família. “As pessoas de menor renda vão usar essa poupança para pagar despesas correntes, pois imaginam que vão se ver em situação difícil no começo do ano. Já os de alta renda querem poupar para fazer uma viagem de férias no futuro, já que agora não conseguem viajar por conta da pandemia”, diz a coordenadora de sondagens do FGV Ibre.

O que esperar de 2021? Esse cenário de incertezas não parece que vão ser resolvido logo nos primeiros meses de 2021. “O consumidor não se sente seguro para gastar e não é porque não quer, mas porque está preocupado com a economia e com os efeitos de uma segunda onda de covid-19. O empresário, por sua vez, não se sente confiante para investir, aumentar a produção e contratar. Nesse momento, ele nem consegue aumentar a produção, pois dependendo do setor enfrenta falta de matérias-primas”, afirma Viviane.

Para Gustavo Bahia, da Getnet, a redução da renda disponível para o consumo deve ser um ponto de atenção para a indústria nos primeiros meses de 2021. “O movimento de compra deve ser mais comedido do que a gente tem observado até agora. Adicionalmente, há o impacto do fim dos programas emergenciais, o que acende um sinal de alerta.”

Que setores já começaram a sofrer? Dados do ICVA, da Cielo, e do iGet, da Getnet, mostram queda nas vendas de supermercado e material de construção, que desde o começo da pandemia apresentavam crescimento. Veja dados do iGet:

Setor% novembro x outubro% 2020 x 2019
Supermercados-1%3,7%
Vestuário-8,1%-8,2%
Móveis e eletrodomésticos-15,4%-15,4%
Farmácias-3,2%-5,4%
Materiais de construção-7,1%3,6%

O que esses indicadores mostraram? Os dois vieram com queda em novembro:

  • iGet: as vendas do varejo restrito caíram 5,5% em relação a outubro, descontados fatores sazonais. No comparativo anual, pela primeira vez, o índice caiu 0,9%.
  • ICVA: as vendas no varejo brasileiro caíram 11,0% em novembro em relação ao mesmo mês do ano passado.

O que essas quedas indicam? Para o superintendente-executivo de Inteligência da Cielo, Gabriel Mariotto, parte da queda de novembro pode ser atribuída à base de comparação. “Novembro de 2019 foi um mês muito forte, puxado pela Black Friday, Neste ano, por conta da pandemia, houve queda nas lojas físicas.”

Outro motivo para a queda nos supermercados pode ser a inflação, que vem pressionando o custo dos alimentos.

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