O consumidor brasileiro sairá diferente da quarentena. Quando as restrições à livre movimentação e abertura de comércios acabarem, o mais provável é que as marcas encontrem clientes que valorizam mais a austeridade e demonstram maior preocupação com o futuro, que ainda será incerto.

A avaliação é de especialistas em varejo ouvidos pela reportagem, que ressaltam que a volta aos patamares de consumo anteriores à chegada do coronavírus levará tempo, e provavelmente ocorrerá em todas as categorias de produtos apenas em 2021.

“O brasileiro médio nunca havia passado por isso na história, perdas humanas em grande escala. Não é igual a uma guerra, mas vai ficar na mente das pessoas que isso pode acontecer de novo. Esse pensamento de que o que eu ganho eu gasto vai se enfraquecer”, avalia Ricardo Kamaura, da consultoria Cosin Consulting.

Qual será o cenário no Brasil com o fim da quarentena? Ainda é difícil mensurar exatamente a duração das restrições impostas pela crise e a intensidade dos impactos negativos sobre a economia. Mas é fato que haverá mais desemprego, menos renda e incerteza em relação ao futuro.

“A renda vai cair para todo mundo, mais ou menos, mas vai se reduzir”, afirma Kamaura, da Cosin. “Parte das pessoas estarão sem emprego, parte com renda reduzida, como profissionais liberais, parte vai ter feito algum acordo com a empresa e, por exemplo, adiará o recebimento do 13º salário”, exemplifica.

E como deverá ser o comportamento do consumidor? Podemos esperar que uma demanda reprimida compense a queda nas vendas? A avaliação é que a forte insegurança econômica trazida pela pandemia transformará a visão dos consumidores. Pesquisa feita pela XP Investimentos entre os dias 30 de março e 1º de abril mostrou que 50% dos brasileiros já foram afetados financeiramente pela crise, o que tende a aumentar.

No curto prazo, portanto, especialistas não veem o consumo reprimido compensando os problemas econômicos trazidos pelas restrições impostas pela infecção.

“As pessoas passam a encarar o consumo de forma consciente. É aquele lance de poupar que imigrantes de países que passaram por guerras, na Europa ou no Japão, possuem até hoje. A sensação de que já passei privação, e portanto vou pensar melhor antes de sair comprando”, diz Kamaura.

Guilherme Dietze, assessor econômico da Fecomercio SP, lembra que a maior parte dos brasileiros não poupa: dados de uma pesquisa da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que 79% dos brasileiros que ganham até R$ 1.908 não guardam dinheiro.

Esse comportamento é notado também, em menor escala, entre pessoas com renda familiar mensal igual ou superior a R$ 19 mil: quatro em cada 10 brasileiros dessa faixa de renda não poupam.

“A maior parte das pessoas não tem recursos. Há muitos autônomos, muitos informais que vivem com a renda do dia a dia”, observa Dietze. “Portanto, o cenário é de cautela e de restrição de consumo. Não vejo uma volta rápida”.

Quais setores devem passar por retomada primeiro? E quais mais demorarão a voltar? A avaliação dos especialistas ouvidos pela reportagem é que setores de gastos mais básicos, como alimentos e remédios (que mesmo sendo essenciais tiveram o consumo reduzido) e combustíveis, se recuperarão mais rapidamente, assim que a quarentena for levantada.

“Aí temos um bloco intermediário, que são eletroeletrônicos e moda, que vão ter retomada um pouco mais para frente, outubro, novembro, talvez até dezembro”, avalia o especialista da Cosin.

Os setores que vão demorar mais para se recuperar são os ligados a turismo e passagens aéreas. “Até porque haverá ainda o problema do dólar alto. Quem deixou de viajar para fora não vai retomar isso rápido”.

Para ele, o cenário deve melhorar apenas em 2021. “Se tudo der certo, cresceremos acima de 3%, e aí talvez colheremos uma recuperação em todos os setores”.

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