Os resultados da chamada “Super Terça” foram decisivos para os rumos da política americana. De uma longa lista de candidatos, o Partido Democrata chega a esta quarta-feira (4) com basicamente dois nomes viáveis para a Casa Branca.

Um deles é Joe Biden, que foi vice-presidente durante o governo Barack Obama e agora desponta como favorito. O outro é Bernie Sanders, senador pelo estado de Vermont que se define como “socialista democrático” e empolga os eleitores mais jovens.

Falar em socialismo — apesar de ele defender algo bem diferente do que os modelos praticados na antiga União Soviética ou em Cuba — faz com que o parlamentar provoque arrepios no mercado financeiro. Biden, por outro lado, é visto em Wall Street como uma repetição da gestão Obama, algo conhecido e que não provocaria mudanças muito radicais na condução do país.

Prejudicado pelo discurso de que seria radical demais para bater o presidente Donald Trump na votação final, Sanders viu muitos nomes fortes entre os democratas migrarem para a candidatura de Biden, que se fortaleceu muito rapidamente e deixou para trás a condição de azarão. Os apoiadores do senador, por outro lado, lembram a derrota de Hillary Clinton para Trump em 2016 para defender um caminho mais radical como enfrentamento ao atual presidente.

Seja como for, fato é que a definição do próximo ocupante da Casa Branca será um tema central para os rumos da economia global e as relações diplomáticas mundiais. Além de ser uma economia mais vulnerável, o Brasil também figura em algumas discussões importantes, como meio ambiente e o comércio global.

Que disputa é essa? O que está acontecendo nos Estados Unidos? A eleição americana segue um modelo mais complexo que o nosso. Lá, são apenas dois partidos com representatividade, o Democrata e o Republicano.

Ao longo dos meses que antecedem a votação, os partidos promovem votações regionais a fim de escolher um candidato para a eleição final, que este ano acontece em novembro. Esse processo é conhecido como primárias. A “Super Terça” ocorrida nesta semana é o dia em que 14 estados diferentes realizam votações, um volume grande de votos que dá contorno às disputas.

Foi nessa votação, realizada ontem, que Biden ganhou força para disputar a votação final, tendo Sanders como sombra. Depois de investir parte de sua fortuna na campanha, o empresário Michael Bloomberg desistiu e anunciou seu apoio ao ex-vice-presidente.

Ok. E como isso afeta o mercado, o Brasil e o meu bolso? Os Estados Unidos são a maior economia do mundo, com um alto volume de negócios, importações e exportações. Sendo assim, a política econômica adotada por lá tem reflexos em todo o mundo. Como já foi dito, economias como a brasileira tendem a ser mais vulneráveis aos sobressaltos globais.

Pelos motivos que vamos detalhar a seguir, a ascensão de Joe Biden é bem vista nos mercados. Ele é visto como alguém de perfil mais moderado, tanto em relação ao seu adversário imediato, Bernie Sanders, quanto em relação a Trump.

Há discussões sobre a viabilidade eleitoral do ex-vice e o que ele de fato representa, mas foi com essa isca que ele atraiu ex-adversários para a sua canoa. Após a superterça, ganhou a adesão de outro favorito do mercado entre os democratas, Michael Bloomberg. A perspectiva contribuiu para a alta de 4,2% no índice S&P 500, do mercado americano.

Guerra Comercial

As disputas comerciais entre os EUA e a China, que ficaram conhecidos como “Guerra Comercial”, foram a gangorra dos mercados ao longo do último ano. “A primeira questão é, sendo quem for o próximo presidente, qual será a posição em relação à China. Todos os candidatos de oposição têm dito que terão uma postura amigável, mas o Trump também dizia isso”, avalia Milton Pignatari, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

No caso de uma reeleição de Trump, a expectativa é que pouco mude, com o presidente americano surfando na popularidade da reeleição para endurecer ainda mais com os chineses. Para o Brasil, isso pode significar pressões todas as vezes que ele considerar que os Estados Unidos são prejudicados em alguma negociação, como aconteceu no caso do aço e alumínio.

“O mercado brasileiro ainda tem uma presença global pequena, precisamos aumentá-la. A força de gestão do Joe Biden, no governo Obama, agradava porque era vista como mais amigável. O Trump também agrada aos mercados, mas tem perfil mais agressivo. Em caso de Trump ou Sanders, a expectativa é que o Congresso modere radicalismos”, explica Henrique Basquat, da All Investimentos.

Meio Ambiente

Leonardo Trevisan, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, acrescenta um outro fator importante, a questão climática. Bernie Sanders é um candidato com posição ambiental mais nítida, defendendo uma política firme contra combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, o que faz tremer parte dos empresários americanos.

Esse é um tema sensível ao Brasil, país que tem uma grande área de preservação ambiental e que historicamente demanda iniciativas que compensem os esforços das economias emergentes em conciliar crescimento e preservação. Sendo Trump um político crítico ao ambientalismo, o que também não é unanimidade em um mercado com iniciativas crescentes de responsabilidade ambiental, os olhos se voltam para Joe Biden.

“A questão central para o Meio Ambiente nesta eleição será a posição do Biden. Até o momento, ele tem dado sinais dúbios. Além de ter a questão da Ucrânia, ele não fala muito abertamente sobre isso. A tendência é a de que seja um candidato que defenda o Acordo de Paris, mas não faça nada para cumpri-lo efetivamente”, explica Trevisan.

A menção à Ucrânia se deve ao fato do filho de Joe Biden já ter trabalhado para empresas do setor de energia. A tentativa de explorar relação nebulosa de Hunter Biden com uma empresa deste país fez com que o presidente Donald Trump enfrentasse um pedido de impeachment.

Por que o mercado rejeita Sanders? A campanha do senador Bernie Sanders gira em torno de um forte discurso contra a desigualdade social e a favor do aumento dos gastos públicos. Apesar de estar distante da definição clássica do que é “socialismo”, o discurso de Sanders é pouco comum nos Estados Unidos, onde tradicionalmente a disputa fica entre gradações diferentes de discursos pró-mercado.

Para especialistas ouvidos pelo 6 Minutos, a rejeição a Sanders é algo mais geral ao discurso do candidato do que um temor específico sobre essa ou aquela proposta do candidato. Em boa parte, porque caso vire presidente, o senador tende a ser podado pelo Congresso em projetos mais ousados.

Em linhas gerais, Sanders defende a criação de novos impostos sobre empresas e grandes fortunas para financiar medidas que provenham sistemas públicos de educação e saúde. O senador afirma que hoje serviços privados de boa qualidade são inacessíveis a boa parte dos americanos.

Críticos dizem que os novos impostos podem afastar negócios e investidores e que o político não deixa claro como os projetos se pagam e ameaça o saneamento das contas públicas. Acende também o fato de Sanders defender mudanças na composição dos conselhos de empresas, para aumentar a participação de empregados.

E Biden? O principal ativo de campanha de Joe Biden é Barack Obama. O fato de ter sido vice-presidente do primeiro negro a assumir a Casa Branca faz Biden crescer entre os negros e outros grupos cada vez mais representativos na eleição americana, como os latinos.

O discurso de Biden daqui até o final — primeiro contra Sanders e depois, se vencer, contra Trump — será o de se apresentar como o nome da moderação, algo como a volta a uma normalidade política após o furacão dos últimos anos. Fora isso, no entanto, ainda precisa dizer mais a que veio.

“O Joe Biden pouco fala de economia, não dá para saber direito o que ele pensa sobre economia, o que ele pretende de fato fazer. O Obama também não fala muito, mas mantinha o Lawrence Summers [consultor econômico do ex-presidente] sempre por perto, como um sinal”, explica o professor Leonardo Trevisan.

De acordo com o especialista, Biden pertence a uma ala democrata que tem “aproximação mais envergonhada” com Wall Street. Que flerta tanto com a agenda de liberalidade econômica quanto com a agenda de maior intervenção estatal e atua no governo mesclando uma e outra.

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