Por Isabel Versiani

BRASÍLIA (Reuters) – O Banco Central elevou a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual para 2,75% nesta quarta-feira e disse que deve promover um novo aperto de igual magnitude em sua próxima reunião em maio, ressaltando uma piora nas projeções para a inflação, em meio às incertezas geradas pela pandemia.

O Banco Central elevou a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual para 2,75% nesta quarta-feira e disse que deve promover um novo aperto de igual magnitude em sua próxima reunião em maio, ressaltando uma piora nas projeções para a inflação e um cenário externo desafiador para economias emergentes.

O primeiro aperto monetário em quase seis anos veio acima do esperado pelo mercado, que apostava em uma alta de 0,5 ponto percentual, segundo 29 de 30 especialistas consultados em pesquisa Reuters.

Em comunicado divulgado ao fim da sua reunião, o Comitê de Política Monetária afirmou que “uma estratégia de ajuste mais célere do grau de estímulo tem como benefício reduzir a probabilidade de não cumprimento da meta para a inflação deste ano, assim como manter a ancoragem das expectativas para horizontes mais longos”.

“Além disso, o amplo conjunto de informações disponíveis para o Copom sugere que essa estratégia é compatível com o cumprimento da meta em 2022, mesmo em um cenário de aumento temporário do isolamento social.”

A alta dos juros ocorre em meio à escalada da inflação –que em 12 meses já está próxima do teto da meta para o ano de 5,25%–, à fraca atividade e à desvalorização contínua do câmbio, em um cenário de forte recrudescimento da pandemia da Covid-19 no país.

O BC destacou em seu comunicado que as expectativas de inflação dos agentes econômicos passaram a se situar acima da meta no horizonte relevante de política monetária, e que suas próprias projeções também estão próximas do limite superior da meta em 2021.

No cenário básico do Copom, que considera a trajetória prevista pelo mercado para os juros e um câmbio que evolua segundo a paridade do poder de compra, a projeção de inflação está em torno de 5% para este ano e 3,5% para 2022. As metas para o período são de, respectivamente, 3,75% e 3,5%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

“Para a próxima reunião, a menos de uma mudança significativa nas projeções de inflação ou no balanço de riscos, o Comitê antevê a continuação do processo de normalização parcial do estímulo monetário com outro ajuste da mesma magnitude”, disse o Copom.

Em relação à atividade econômica, o colegiado apontou que o PIB encerrou 2020 com um crescimento forte na margem e que indicadores recentes continuaram apontando recuperação consistente da economia, mesmo com a redução dos programas de recomposição de renda. Mas o Copom alertou que essas leituras ainda não contemplam os possíveis efeitos do recente aumento no número de casos de Covid-19 no país.

“Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro e segundo trimestres deste ano”, disse o Copom.

O país superou a marca dos 284 mil mortos por Covid-19 nesta quarta-feira, quando registrou um novo recorde diário de casos, com 90.303 novas infecções.

ESTAGFLAÇÃO

O Copom havia elevado os juros pela última vez no final de julho de 2015, quando a Selic passou de 13,75% para 14,25%. Naquele ano, a inflação fechou o ano acima dos 10%, superando o teto da meta do governo (6,5%), enquanto o PIB encolheu 3,55%, cenário que economistas caracterizavam como de “estagflação”.

Desde então, o BC veio reduzindo a taxa básica de juros gradualmente até levar a Selic à mínima histórica de 2%, patamar em que estava desde agosto do ano passado.

Diante da inflação crescente, do desemprego em alta e do forte desequilíbrio fiscal, economistas têm alertado que o país mais uma vez enfrenta a perspectiva da estagflação.

No front fiscal, a Proposta de Emenda à Constituição que abriu a possibilidade da renovação do auxílio às famílias vulneráveis, ao custo de 44 bilhões de reais, também criou algumas regras de ajuste fiscal. Mas a expectativa de economistas é que elas só passarão a vigorar a partir de 2025, e não oferecem compensação de curto prazo ao aumento de gastos, que pressionará a dívida pública.

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