O banco central dos EUA se aproxima do início de um longo caminho para normalizar sua relação com Wall Street e com o resto de Washington.

Depois de passar os últimos 15 meses fornecendo apoio sem precedentes ao governo federal e aos investidores por meio de trilhões de dólares em compras de títulos de dívida, o Federal Reserve pode começar discussões preliminares sobre como reduzir esse suporte já na reunião que vai desta terça-feira até amanhã.

Ainda assim, é provável que o presidente do Fed, Jerome Powell, e seus colegas levem meses para dar passos reais nesta direção.

Desacostumar Wall Street e Washington da extraordinária generosidade do banco central não será fácil. Desde que a Covid-19 atingiu os EUA em março de 2020, o Fed comprou mais de US$ 2,5 trilhões em dívidas do Tesouro, efetivamente cobrindo mais da metade do déficit do governo federal no período.

Esse movimento de compra — que incluiu cerca de US$ 870 bilhões em títulos lastreados em financiamentos imobiliários — inundou os mercados financeiros com liquidez, contribuindo para que o mercado acionário dobrasse de patamar desde que atingiu seu pior momento na pandemia.

“Será como rastejar sobre o fio de corte de uma faca”, afirmou Charles Goodhart, que já foi diretor do banco central da Inglaterra, sobre a missão diante do Fed. “Se fizer pouco, a inflação vai continuar se acelerando. Se fizer muito, vêm crise financeira e recessão.”

Representantes do Fed já declararam que querem ver “progresso adicional” em direção a seus objetivos de pleno emprego e inflação média de 2% antes de reduzir as compras de ativos, atualmente em US$ 120 bilhões por mês. Nenhum dos integrantes da instituição sugeriu que o país esteja perto disso, embora alguns peçam o começo das discussões sobre um plano para reduzir essas compras.

Powell ressaltou mais de uma vez que o nível de emprego ainda está substancialmente abaixo de onde se encontrava antes da pandemia — com cerca de 7,6 milhões de vagas a menos, de acordo com o relatório oficial do mercado de trabalho referente a maio.

Embora a inflação recente tenha se mostrado surpreendentemente acelerada — os preços ao consumidor subiram 5% nos 12 meses até maio —, Powell e seus colegas do Fed argumentaram que o aumento é de modo geral temporário, causado por gargalos associados à reabertura da economia e pelos resultados baixos de um ano atrás, quando vieram as medidas de restrição de mobilidade.

Após anos de inflação abaixo da meta, as autoridades vão “errar pelo lado da paciência” no processo de diminuição de estímulos, disse David Wilcox, que já trabalhou no Fed e hoje atua no Peterson Institute for International Economics.

O passado e o potencial futuro de Powell também recomendam paciência. Quando ocupava o cargo de diretor do Fed em 2013, ele foi um dos que pressionaram o então presidente da instituição, Ben Bernanke, a retirar o chamado estímulo quantitativo. A simples sugestão de que a mudança na postura do banco central viria foi suficiente para os mercados financeiros reagirem bruscamente, no episódio que ficou conhecido como “taper tantrum”.

O mandato de Powell à frente do Fed termina em fevereiro e ele tem um incentivo adicional para evitar uma repetição daquela turbulência.

Cerca de três quartos dos economistas sondados pela Bloomberg na semana passada esperam que o Fed anuncie entre agosto e o final do ano que começará a reduzir as compras. Um terço dos entrevistados não prevê a largada do processo antes de dezembro.

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