A temporada de divulgação de balanços do segundo trimestre chegou ao fim, e agora que a água já baixou, é possível perceber o tamanho do estrago que a pandemia do coronavírus causou nas empresas. A análise do mercado é que embora a fotografia do trimestre tenha sido ruim, o resultado foi melhor que o esperado inicialmente. Mas nem tudo são flores: ainda há uma série de obstáculos no caminho da recuperação.

“De forma geral, mais balanços superaram as expectativas. O mercado tinha precificado resultados bem ruins e tivemos boas surpresas”, diz Lucas Carvalho, analista da corretora Toro Investimentos.

Afinal, as previsões eram pessimistas demais ou as empresas realmente se superaram? Pode-se dizer que as duas respostas estão certas. A quarentena no Brasil foi menos rígida que a adotada em outros países, então a maioria das empresas conseguiu manter-se funcionando de alguma forma. Isso ajudou a manter os resultados minimamente de pé.

Além disso, a excepcionalidade da situação fez com que a maioria dos analistas pesasse a mão nas previsões. “As expectativas estavam mais conservadoras. As empresas entregaram resultados muito aquém do que elas costumam entregar, mas menos piores do que se esperava”, diz Pedro Serra, analista da gestora Ativa Investimentos.

Quais setores foram bem no segundo trimestre? 

6 Minutos conversou com analistas para saber quem surpreendeu positivamente e quem decepcionou no resultado trimestral. Confira:

E-commerce

Varejistas com operações mais consolidadas nos canais digitais de vendas tiveram resultados positivos, impulsionados pelo efeito da quarentena. Diante do medo de sair de casa e do fechamento de lojas físicas, muitos consumidores recorreram às compras online.

“No e-commerce, o movimento daqui é muito semelhante ao que aconteceu na China. A demanda toda se concentrou nos canais online, o que fez com que o resultado de empresas como Magazine Luiza, Via Varejo e B2W viesse acima das expectativas”, conta Serra. Não por acaso, essas empresas acumulam valorização superior a 70% em suas ações desde o início do ano.

Supermercados

Outro setor que se beneficiou da quarentena foi o de supermercados. Para essas empresas, a surpresa foi ainda maior. No início da pandemia, os consumidores fizeram uma verdadeira corrida às compras, temendo um possível desabastecimento de produtos. “Os supermercados já tinham vindo fortes no primeiro trimestre, por causa desse efeito, então era esperado um segundo trimestre mais fraco”, explica Serra.

A realidade mostrou que o fenômeno iria além dessa corrida inicial por suprimentos. A quarentena obrigou muita gente a passar mais tempo em casa, e o número de refeições no lar aumentou, o que elevou o valor médio das compras. Sinal dessa bonança atípica foi a contratação de 2 mil trabalhadores pelo Grupo Pão de Açúcar em plena pandemia.

Construção civil

Apesar da incerteza causada pela pandemia, o mercado imobiliário segue aquecido, principalmente em São Paulo, maior e mais importante praça para o setor. “O resultado não foi o melhor, mas o que tem chamado atenção é que o mercado de habitação está aquecido, em especial no segmento de média e alta renda”, diz o analista da Ativa.

Esse movimento contra a corrente tem a ver com a taxa de juros no menor nível da história. A maioria dos bancos tem praticado juros na casa dos 7% para os financiamentos imobiliários, e muitas famílias estão aproveitando esse momento para comprar o primeiro imóvel ou para trocar de casa.

Saúde

O segmento de operadoras de saúde era uma grande incógnita, já que a pandemia exerce efeitos distintos sobre os custos e receitas dessas empresas. Por um lado, as internações de pacientes conveniados por covid-19 em unidades de terapia intensiva aumentaram os custos, mas por outro, o número de procedimentos eletivos e de rotina caiu, o que diminuiu a sinistralidade e deu um alívio para as despesas.

“Embora o número de beneficiários dos planos tenha caído, a receita das operadoras não foi tão afetada”, diz Serra, da Ativa.

Petrobras e Vale

As duas gigantes da Bolsa, que representam quase 20% do Ibovespa, surpreenderam por motivos diferentes. Bastante afetada pela queda no preço do barril de petróleo no mercado externo, a Petrobras mostrou ser capaz de manter as despesas sob controle, preservando sua capacidade de geração de caixa na crise.

“O pré-sal tem um custo de extração mais baixo, e esse tipo de exploração tem ganhado peso no resultado da Petrobras. É importante dizer, no entanto, que a empresa tem desafios grandes pela frente, como a redução das dívidas e a venda de ativos”, diz Serra, da Ativa.

Já a Vale vive um momento oposto. Seu principal ativo de produção, o minério de ferro, está subindo no mercado externo, o que impulsionou os resultados da empresa mesmo com o comércio externo reduzido. Além disso, a China retomou seu ritmo normal da economia, e tem puxado a demanda internacional pelo minério de ferro.

Quais setores tiveram um desempenho ruim?

Apesar de a média geral ter sido positiva, alguns setores vieram abaixo do esperado e surpreenderam negativamente o mercado. Veja abaixo alguns deles:

Bancos

Os bancos já tinham sofrido um baque no balanço do primeiro trimestre, quando a crise oficialmente começou. O nível de provisões (valores reservados pelos bancos para cobrir eventuais calotes dos clientes) foi alto já entre janeiro e março, então os analistas tinham expectativa de que esse indicador teria uma melhora no segundo trimestre. Mas não foi o que aconteceu.

Todos os bancos privados foram obrigados a aumentar o nível de provisões no segundo trimestre, o que indica que o nível de inadimplência deve seguir alto, e que a recuperação será tortuosa. A única exceção foi o Santander, que provisionou menos no primeiro trimestre e conseguiu segurar bem as despesas entre abril e junho.

Shoppings

Ainda que as lojas estejam reabrindo na maior parte do país e embora o sentimento seja de que o pior já ficou para trás, o pior momento para os shoppings foi no segundo trimestre. “As cidades têm amenizando medidas restritivas, e isso tem impactado positivamente o setor”, lembra o analista da Ativa. No entanto, a capacidade de venda do comércio ainda está reduzida, e a recuperação deve ser árdua.

Setor aéreo

Os resultados negativos das companhias aéreas não foram nenhuma surpresa, já que os voos seguem praticamente parados. O nível de endividamento ainda preocupa os investidores, mas as grandes companhias têm conseguido renegociar seus compromissos de curto prazo. Em razão desse alívio, as ações da Azul e da Gol, que derreteram durante a crise, voltaram a subir — embora ainda estejam bem distantes de uma recuperação completa.

“Esse é um movimento especulativo, de tentar antecipar melhora lá na frente, mas as incertezas para o setor aéreo continuam grandes”, diz Serra, da Ativa.

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