Quem diria que as vendas de tablet estariam em alta em pleno ano de 2020? Ou que o aspirador de pó seria o eletroportátil com maior aumento de vendas de todo o ano. Ou que as pessoas estariam mais interessadas em comprar uma batedeira do que trocar de celular. Pois esses são os desejos de consumo criados durante a pandemia de coronavírus.

Levantamento da consultoria GfK identificou três padrões de consumo durante a pandemia: primeiro veio o pânico, depois a necessidade de adaptação e agora, por último, começa a surgir o sentimento de indulgência. “O sentimento é de que a pandemia vai demorar mesmo para passar, já estou trancado dentro, então mereço me dar esse presente”, diz Fernando Baialuna, diretor da GfK.

Como assim? Assim que a quarentena foi decretada, as lojas foram fechadas repentinamente e o consumo de eletroeletrônicos e eletrodomésticos despencou.

“Até a 12ª semana do ano, o padrão de consumo era mais ou menos parecido com o de 2019. As vendas cresciam cerca de 8% contra as mesmas semanas do ano passado. Mas aí veio a quarentena, o consumidor entrou em pânico e as vendas caíram 31%. A partir da 17ª semana, o consumidor percebeu que era preciso se adaptar à nova rotina”, afirma Baialuna.

Como isso afetou o comportamento de consumo? O diretor da GfK diz que essas fases podem ser sentidas pelos produtos mais comprados em cada fase:

Pânico (da 13ª a 16ª semana)

  • Aspirador robô: 682%
  • Aspirador de pó: 54%
  • Videogame console: 41%
  • Notebooks: 26%
  • Lava e seca: -15%
  • Celular: -41%

Adaptação 1 (da 17ª a 19ª semana)

  • Aspirador robô: 914%
  • Aspirador de pó: 98%
  • Videogame console: 88%
  • Notebooks: 85%%
  • Tablet: 73%
  • Celular: 13%

Adaptação 2/início de indulgência (da 20ª a 23ª semana)

  • Aspirador robô: 766%
  • Batedeira: 101%
  • Aspirador de pó: 100%
  • Videogame console: 97%
  • Notebooks: 92%
  • Tablet: 82%
  • Celular: 27%
Aspirador robô

Aspirador robô é o fenômeno de vendas do ano

O que esses produtos têm a ver com essas fases? O aumento de compra de notebooks e tablets tem relação com a necessidade das famílias de trabalhar e estudar em casa. “Depois, elas tiveram que limpar a casa, cozinhar, assumir tarefas que não estavam acostumadas e por isso se prepararam para desempenhar essas funções. Então passaram a ter necessidade de diversão, daí compraram videogame. E o aspirador é um ícone”, afirma Bailuna.

O que é essa procura desproporcional por aspirador? Giovanni Marins Cardoso, cofundador e CEO da Mondial Eletrodomésticos, diz que as pessoas ficaram mais tempo em casa e por isso perceberam a necessidade de produtos que não tinham notado falta até então. Isso explica em muito o sucesso do aspirador.

Apesar do aumento expressivo do aspirador robô, Cardoso diz que esse equipamento cresceu sob uma base muito pequena (menos de 5% do mercado). O segmento, segundo ele, é dominado pelo aspirador vertical.

Outros produtos que registraram forte aumento de vendas foram as escovas modeladoras, cortador de cabelo e aspirador de pelo. “Sem poder ir para o salão ou barbeiro, as pessoas se equiparam para resolver o corte de cabelo ou barba em casa mesmo”, diz o CEO da Mondial.

O varejo já mediu essa mudança de comportamento? Vale dizer que a venda ainda é pulverizada e talvez por isso as varejistas tenham sentido um comportamento diferente. Veja:

Magazine Luiza

  • Liquidificador
  • Fritadeira sem óleo
  • Aspirador de pó
  • Ventilador
  • Escova modeladora
  • Lava-louça

Via Varejo

  • Games e câmeras, com itens como controles, drones e câmeras semiprofissionais;
  • Televisores
  • Equipamentos de som
  • Itens de informática e de escritório
  • Fogões

E o que as pessoas querem comprar? Uma coisa é comprar, outra é pesquisar. O Zoom comparou as principais buscas do período abril/maio com fevereiro/março.

Máquina de costura458%
Máquina de cortar cabelo403%
Processador de alimentos265%
Batedeira262%
Modelador/babyliss238%
Secador203%
Aspirador de pó169%
Fritadeira168%
Liquidificador165%
Cafeteira elétrica121%

Com tudo isso, como fica o ano do setor então? Baialuna diz que apesar da queda brutal inicial de vendas, o setor de eletro acumula uma alta nas vendas de 5% até a 23ª semana do ano. A dificuldade é saber como o ano fechará, pois o consumo será reprimido por problemas que não se resolverão tão cedo, como desemprego e queda de renda. “O consumidor vai racionalizar muito antes de comprar. Quem tinha dinheiro, já comprou. Quem não tinha, continua sem poder comprar.”

Já Cardoso, da Mondial, diz que as vendas devem continuar subindo. Segundo ele, as casas dos brasileiros são desabastecidas de vários tipos de eletrodomésticos. “Existem 19 milhões de casas no país sem nenhum liquidificador. Outras 59 milhões não têm nenhum aspirador. O espaço para crescer é muito grande ainda.”

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