O Brasil tem 45 milhões de desbancarizados. São pessoas sem nenhum acesso a serviços bancários. Não conseguem pagar nem receber por uma conta bancária, muito menos tomar crédito ou parcelar pagamentos. Essa população pertence às classes C, D e E e movimenta R$ 800 bilhões ao ano, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva.

Muitas fintechs se propõem a mudar esse cenário. Elas já entenderam que esses 45 milhões de brasileiros representam um mercado cheio de potencial.  Mas sozinhas, caminham a passo de formiga. Se conseguissem parcerias com a Caixa Econômica Federal, por exemplo, crescer o número de clientes seria um pulo.

Do lado do governo, a parceria com as fintechs pode ajudar no esforço de trazer mais gente para o sistema financeiro. O assunto da parceria andava restrito a conversar informais, mas voltou à tona em meio ao pagamento do auxílio emergencial e das discussões sobre a renda básica.

Segundo o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, 61,5% dos brasileiros que receberam o auxílio emergencial eram desbancarizados. Ele diz que a inclusão financeira já é um dos legados do auxílio emergencial.

Por que a desbancarização é um problema? Esse público está à margem da economia formal, sem acesso a crédito e produtos financeiros. Se estivessem incluídos no sistema, poderiam ter crédito para realizar compras a prazo e financiar bens de valores mais elevados. Esse incentivo ao consumo ajuda a fazer girar a economia.

Como seria essa parceria? Uma das propostas é no modelo de PPP (Parceria Público-Privada). E funcionaria em duas frentes: abertura de contas e análise de crédito. Quem explica é a diretora executiva da ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs), Ingrid Barth.

O governo entra com a demanda e as fintechs, com a tecnologia.

No caso da abertura de contas, o governo pode se unir a startups que tenham produtos direcionados para um tipo de público, e lançar uma campanha para fomentar a abertura. As fintechs operam em menor escala e por isso podem adaptar uma tecnologia ou produto mais rapidamente.

Já na frente de crédito, as fintechs podem tanto fazer o empréstimo como ajudar os bancões ou o BNDES a fazer as análises. Ingrid conta que é comum uma análise demorar três meses. As fintechs, de novo com produtos de crédito mais específicos, conseguem fazer isso em um período menor.

Quem ganha dinheiro com isso? As fintechs de pagamento, com produtos como conta corrente e cartão físico ou digital, devem ter os maiores retornos. A cada transação feita com o cartão, elas recebem um percentual. É assim que acontece nos bancos também. Quanto maior a quantidade de clientes, melhor para fintech.

O governo não ganha dinheiro diretamente. Mas inclusão financeira é sinônimo de fomento à economia e, portanto, arrecadação de receita. Uma economia mais aquecida significa um país mais rico.

Quais os desafios? A parceria entre governo e empresas privadas exige transparência e definição de regras de governança. Decidir a maneira de fazer isso toma tempo do governo – também é necessário que exista interesse. Afinal, as fintechs não devem ter acesso a informações privadas do governo, como as que foram analisadas pelo Dataprev para aprovar ou não o cadastro no programa do auxílio emergencial.

Definir até onde vai o limite das fintechs é importante antes de firmar a parceria. A própria Ingrid, da ABFintechs, reconhece que é preciso tempo para definir os detalhes e amarrar as pontas do negócio das fintechs às necessidades da população e decisões do governo. Começar a parceria logo no susto e urgência do auxílio emergencial poderia ser arriscado demais.

Em uma carta pública, a ABFintechs se colocou à disposição do governo para fomentar a distribuição de recursos.

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