Durante a pandemia, e sob forte pressão de projetos para limitar taxas e elevar impostos em andamento no Congresso, os bancos brasileiros reduziram os juros na ponta ao menor patamar desde março de 2011, quando começa a série histórica do Banco Central.

Motivo para comemoração? Não é bem assim. Os bancos do Brasil ainda cobram as maiores taxas de consumidores e empresas do mundo, mostram dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) pesquisados pelo 6 Minutos.

O organismo internacional coleta mensalmente a taxa de juros média para pessoas físicas e jurídicas praticada em diversos países levando em conta apenas os chamados recursos livres (ou seja, não inclui empréstimos subsidiados, como financiamento imobiliário, agrícola ou BNDES).

Essa comparação mostra que, apesar do Banco Central ter reduzido nossa taxa básica (Selic) a 2,25% ao ano, a diferença entre os nossos juros e os de outros países em desenvolvimento é considerável.

Em maio, último dado comparável, os juros médios brasileiros na ponta ficaram em 29,5% ao ano. Entre os Brics (grupo de grandes países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o segundo país com a maior taxa, bem depois do Brasil, é a Índia, com 9,1% ao ano.

Em seguida, aparecem Rússia (7,28% ao ano), África do Sul (7,25%) e China (4,35%).

No ranking geral, independentemente de qualquer classificação, o Brasil é seguido por países como Uzbequistão (24,8% ao ano), Argentina (20,8%) e Angola (19,5%).

Ou seja, mesmo considerando-se uma taxa de 27,87%, que foi a média registrada pelo BC em junho, os juros brasileiros ainda lideram. Veja abaixo o ranking dos 10 países campeões de juros altos na ponta.

Selic no piso

Assim como vem acontecendo no mundo todo, o Brasil vem reduzindo os juros como forma de estimular a economia. De 2016 para cá, a Selic foi sendo cortada pelo Banco Central até chegar a seu piso histórico atual.

O movimento colocou a nossa taxa básica no 14° lugar entre as maiores do mundo. Ou seja, quando o assunto é juros de referência para a economia, o país está longe de liderar o ranking.

“Nada explica essa taxa de juros na ponta tão alta em relação a outros países”, afirma o economista e consultor especializado no setor financeiro João Augusto Salles. “A resposta para isso passa principalmente por dinheiro no bolso dos bancos, através da margem de lucro, e dinheiro no bolso do governo, na forma de impostos”, aponta.

Pouca concorrência, risco de inadimplência elevado e os altos compulsórios (valor que os bancos são obrigados a deixar depositado no Banco Central, sem emprestar, para garantir a liquidez do sistema financeiro) também são outras razões que sempre são elencadas quando o assunto é juros altos.

“A estrutura de juros no Brasil é ineficiente. Acaba penalizando os de menor renda, que são os que mais precisam de empréstimos. Quem tem que comprar uma geladeira a prazo, acaba pagando por duas geladeiras no final”, exemplifica Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin Rating.

Sob pressão

Em junho, a taxa média na ponta com recursos livres dos bancos foi de 27,4%, o menor patamar desde o início da série histórica pelo BC, em março de 2011.

“Os dados de junho mostraram alguma retomada do crédito e uma melhora das condições financeiras”, avalia Isabela Tavares, economista da consultoria Tendências. “A queda nos juros é positiva, mas é meio esperada por tudo o que o Banco Central vem fazendo”.

Desde o início da pandemia, o BC vem dando uma série de estímulos ao sistema financeiro para empréstimos, como reduções nos depósitos compulsórios.

Além disso, em meio à crise, os bancos vêm sofrendo pressão de projetos que tramitam no Congresso tentando limitar taxas de juros e até aumentar impostos cobrados do setor.

O país enfrenta seu maior desafio em décadas — analistas esperam, em média, uma queda de 5,6% do PIB (Produto Interno Bruto), a maior desde 1962, quando começou a série histórica. Detentores de lucros bilionários, os bancos passaram a ser especialmente cobrados a fazer sua parte neste momento.

Nesta terça (dia 4), o Senado decidiu que um projeto do senador Alvaro Dias (Podemos-PR), que limita os juros do cheque especial e do cartão de crédito em 30% ao ano será votado nesta quinta-feira (dia 6), o que provocou queda nas ações dos grandes bancos.

A composição dos juros na ponta

Dados do Banco Central ajudam a entender qual o peso da taxa de captação (ou seja, quanto os bancos pagam para captar recursos no mercado, taxa que é baseada na Selic) no custo final do crédito.

Enquanto a taxa de captação pesa 39,2% no custo final, a inadimplência representa 22,7%, despesas administrativas, 15,2%, tributos e custos com o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) 13,8% e a margem financeira, 9% do custo total.

Para a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), esses dados explicam porque os juros são tão elevados na ponta.

“O raciocínio de que, se a Selic caiu x%, os juros bancários também deveriam cair x% é o mesmo de que, se o preço do aço cai 45%, o preço do automóvel também deveria cair 45%. O aço não é o único componente do custo de um carro, assim como o custo de captação não é o único componente da taxa de juros”, afirmou a entidade no livro “Como Fazer os Juros Serem Baixos no Brasil”.

 

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