A campanha do presidente Jair Bolsonaro contra o sistema de votação do Brasil e as pressões para aumentar os gastos sociais antes da eleição presidencial do próximo ano estão atenuando os efeitos de uma das políticas monetárias mais agressivas do mundo sobre os mercados.

Depois que o Banco Central entregou a maior alta da Selic em quase duas décadas no início deste mês, a recuperação do real durou apenas algumas horas antes de ser sufocada por crescentes tensões políticas ligadas à eleição de 2022. Os membros do Copom, criticados por estarem atrás da curva no início do ano, estão vendo as expectativas de inflação continuarem a aumentar, apesar da sinalização de promover outra alta de 1 ponto percentual ou mais se necessário na próxima reunião.

“A parte política está causando incertezas fiscais, pelas tentações populistas frente a uma eleição difícil para o incumbente em 2022. Acredito que riscos políticos e eleitorais vão aumentar à medida que as eleições se aproximem”, disse Mariam Dayoub, economista-chefe da gestora de ativos Grimper Capital. “Mesmo com um BC mais hawkish e que leve a Selic para nível contracionista, o risco fiscal deve limitar a baixa do dólar”

Em uma postura já adotada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, Bolsonaro tem protestado quase diariamente contra o sistema eleitoral do país, criticando os juízes do Supremo Tribunal Federal e lançando dúvidas sobre o processo de votação eletrônica do Brasil antes de sua candidatura à reeleição. Nem mesmo a derrota, no Congresso, do projeto de lei que restabeleceria as cédulas de papel acalmou o ambiente.

Ao mesmo tempo, com a pandemia erodindo sua base de apoio, Bolsonaro prometeu um aumento maciço nos programas sociais, reacendendo as preocupações dos investidores de que o Brasil gastará demais, prejudicando as frágeis contas fiscais que o Ministro da Economia, Paulo Guedes, deveria consertar.

O risco dos títulos do país medido pelo CDS de cinco anos está em seu nível mais alto desde maio, apresentando um dos piores desempenhos do mundo no mês passado. O dólar, que teve forte alívio em relação aos níveis de março, tem oscilado fortemente contra o real durante o dia e subiu 1,2% desde a decisão do Copom de 4 de agosto, para R$ 5,25. O real é a pior entre as moedas latino-americanas nesse período.

“Está bem claro que, não fossem os ruídos políticos e fiscais, o dólar estaria abaixo de R$ 5,00. E o mercado estaria já prevendo uma trajetória de inflação menos alta”, disse Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central que é atualmente estrategista de investimentos da Wealth High Governance.

O turbulento cenário político e fiscal também está prejudicando a capacidade do Banco Central de controlar as expectativas de inflação. Bank of America e Barclays aumentaram as estimativas de preços ao consumidor nos dias após a decisão do Copom. A maioria dos analistas vê os preços ao consumidor em 7,05% no final do ano, acima da meta de 3,75%. Mais preocupante é que também veem a inflação acima da meta em 2022.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reconheceu os desafios de ancorar as expectativas de inflação em um evento online na semana passada e disse que os mercados estão preocupados com a situação fiscal do Brasil, um país que já estava altamente endividado antes da pandemia.

“O mercado é sensível a qualquer notícia que afete o nível de endividamento, o que gera muito ruído”, disse ele.

Um dia antes, o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra, disse que a volatilidade do real está mais alta do que ele preferia que fosse.

Em várias ocasiões neste mês, os ativos brasileiros reduziram ou reverteram os ganhos devido ao ruído político proveniente da insistência de Bolsonaro de que o sistema eleitoral pode prejudicá-lo. Uma reunião cancelada entre Bolsonaro e altos integrantes do STF, juntamente com várias investigações sobre suas ações, tirou o fôlego do real e empurrou para cima a curva das taxas de juros. No fim de semana, Bolsonaro anunciou nas redes sociais que pretende pedir o impeachment de dois membros do STF.

No dia da votação na Câmara sobre o uso de cédulas de papel nas eleições, tanques das forças armadas desfilaram pelas ruas, acirando os nervos em Brasília. Os opositores alertam que Bolsonaro está abrindo caminho para se recusar a aceitar os resultados da votação do próximo ano se perder, semelhante ao que Trump fez nos Estados Unidos.

A assessoria de imprensa do Planalto não respondeu a um pedido de comentário sobre o impacto nos mercados das declarações de Bolsonaro.

A taxa de juros futura para janeiro de 2029 agora está acima de 10%, no maior nível desde 2018. A taxa Selic, que foi cortada para seu piso histórico de 2% durante a pandemia, disparou de volta para 5,25% neste ano, com expectativas de que pode aumentar para até 8% no final de 2021.

Não é apenas a incerteza política que preocupa os investidores. Os economistas veem o déficit fiscal em 7,2% neste ano e 6,4% em 2022, de acordo com uma pesquisa da Bloomberg. Os gastos com a campanha eleitoral do próximo ano e o Bolsa Família reformulado podem piorar esses números.

O fundo de hedge Verde Asset Management levantou preocupações sobre a política fiscal na semana passada e disse que o país está “flertando perigosamente” com seu próprio passado. A dívida líquida do Brasil em relação ao PIB continua acima de 60%, perto do maior nível desde o início do ano. Aumentos de gastos não apenas deteriorariam a situação fiscal do país, mas também contaminariam as expectativas de inflação.

Um grupo de empresários e investidores assinou um manifesto em defesa da democracia brasileira na semana passada em resposta à retórica de Bolsonaro. É a segunda vez que esse grupo fala contra o governo. A primeira foi no início deste ano, quando banqueiros e bilionários protestaram contra a forma como o governo lidou com a pandemia. Em ambas as ocasiões, as cartas não citaram diretamente Bolsonaro.

“Os investidores de portfólio estão muito céticos em relação ao Brasil”, disse Luiz Fernando Figueiredo, presidente da Mauá Capital e ex-diretor do banco Central que foi um dos que assinaram o manifesto. “O Brasil está com uma imagem ruim com toda essa questão da pandemia, Amazônia, sustentabilidade e o fato de que não cresce há muito tempo.”

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