Por Eduardo Simões e Anthony Boadle

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) – Os ataques desferidos pelo presidente Jair Bolsonaro em seus discursos no 7 de Setembro elevaram o patamar das discussões na classe política sobre um eventual impedimento e deterioram as chances de o governo obter junto ao Congresso aprovação de pautas relevantes, especialmente na área econômica.

Após convocação e intensa mobilização feitas pelo presidente, milhares de pessoas foram às ruas de várias capitais do país em apoio a Bolsonaro e com bandeiras contrárias ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Em discursos diante de mais de 100 mil pessoas tanto em Brasília quanto em São Paulo, segundo estimativas das Polícias Militares locais, Bolsonaro subiu o tom dos ataques, especialmente aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, e ameaçou descumprir ordens judiciais. Afirmou ainda que o presidente do STF, Luiz Fux, deveria “enquadrar” os colegas e ameaçou a corte com uma ruptura caso isso não ocorra.

Embora significativa, a presença de apoiadores ficou abaixo das expectativas anunciadas pelo próprio presidente, que esperava discursar para 2 milhões de pessoas na Avenida Paulista, mostrando que a mobilização que bolsonaristas fizeram por dois meses não atingiu o objetivo esperado, o que levou lideranças políticas importantes a colocar o impeachment na pauta de discussões.

“Foi muito aquém do que se esperava”, disse o cientista político e professor do Insper Carlos Melo. “Se esperava o caos, policial militar nos protestos, caminhoneiros, barbarizando mesmo. Hoje nós estaríamos discutindo um golpe. E hoje nós estamos discutindo impeachment, porque nada disso foi para a rua.”

Bolsonaro apostava suas fichas em uma demonstração de força nos atos da terça e afirmou, por mais de uma vez, que ela seria um “ultimato” a Moraes e Barroso. E de fato a retórica do presidente foi de um ultimato, mas o tom inflamado parece não ter surtido o efeito desejado.

“Os discursos de Bolsonaro em Brasília e São Paulo –principalmente em São Paulo– levaram a crise para um patamar bem maior de radicalização… Isso produz uma deterioração irreversível do relacionamento entre as instituições”, disse o cientista político e professor da FGV, Claudio Couto.

“A crise subiu tanto de patamar que hoje o impeachment se tornou mais provável e necessário do que ontem. Não quer dizer que ocorrerá”, ressaltou.

Na avaliação do analista político da Tendências Consultoria Rafael Cortez, as manifestações do 7 de Setembro alteraram o cenário, não sendo mais possível apontar que não há ambiente político para um impedimento. Entretanto, lembra ele, um processo de impeachment não se limita somente a retirar um presidente do cargo.

“A questão agora é de construção de alternativas. Não é trivial fazer essa construção, porque não necessariamente tem neste momento os dois terços (de votos necessários para o impeachment) construídos e o impeachment não é simplesmente tirar um presidente, mas é tirar um presidente e colocar outro”, acrescentou.

“A primeira parte, que é tirar um presidente, me parece que já está no radar. A segunda, que é colocar um outro é que ainda precisa ser construída e é isso que vai determinar o destino final”, disse.

Neste cenário, passa a ser importante acompanhar as movimentações do vice-presidente Hamilton Mourão e das principais lideranças políticas.

Mourão disse mais cedo nesta quarta que o governo tem base na Câmara dos Deputados para barrar um impeachment. Ao mesmo tempo, vários partidos se reunirão a partir desta quarta para definir seu posicionamento sobre a abertura de um processo de impedimento.

PREÇOS EM ALTA

Os ataques e ameaças de Bolsonaro também devem ter reflexos no Congresso, com um aumento da dificuldade de aprovação de pautas, como a reforma administrativa e uma solução para o pagamento dos precatórios, que vinha sendo tratada em conjunto com Legislativo e Judiciário.

“Não há como fazer uma estratégia de recuperação econômica, de reformas, uma agenda econômica, um marco para a agenda social com essa instabilidade política crônica”, disse Leonardo Barreto, cientista político e diretor da Vector Análise, para quem o 7 de Setembro aumentou o isolamento político do presidente e levou seu governo a uma espécie de “ocaso”.

Para Cortez, da Tendências, a situação atual pode permitir a aprovação pelo Congresso de uma articulação orçamentária que garanta uma elevação dos benefícios pagos pelos programas sociais do governo, já que esta é uma vontade tanto do Executivo quanto dos parlamentares, mas ele vê um cenário complicado para medidas econômicas estruturantes e um fechamento da janela para as reformas.

Para Melo, do Insper, um dos efeitos das manifestações de terça será uma elevação dos custos para o governo Bolsonaro, seja para aprovar pautas legislativas, seja para evitar um impedimento, caso seja de fato deflagrado.

“Ficará tudo mais difícil. O presidente que dizia que era forte, não é tanto. Os preços, digamos assim, sobem no mercado político. Os apoios ficam mais caros.”

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