Após quatro meses de queda, o setor de serviços cresceu 5% em junho na comparação com maio. Esse resultado positivo não veio sozinho: a indústria e o comércio também registraram forte expansão no mesmo período – 8,9% e 8%, respectivamente. A pergunta que fica é se agora a economia vai mesmo sair do fundo do poço.

A resposta é que o país começou a sair do abismo em que foi lançado, mas ainda não dá para cravar que retomou o crescimento. “É uma retomada do tombo abruto e repentino que tomamos na pandemia. Mas não começamos a crescer, tanto que na comparação com 2019 a queda é gigante ainda”, diz o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria.

Mas esses números de junho não são de encher os olhos? É bom relativizar. O sócio da Tendências disse que após quedas acentuadas, é natural que o início da recuperação seja forte mesmo. “Podemos esperar que os próximos números não sejam tão altos. Se a recuperação se mantiver, ela vai acontecer em um ritmo mais gradual”, afirma Campos Neto.

Um indicador de que as coisas não vão bem é que o volume de serviços prestados à família caiu 59% em relação ao junho de 2019, indicando uma queda do poder de compra. Entram nesse subsetor os serviços prestados por hotéis, restaurantes e bufês. Uma das exceções é o subsetor de serviços de informação e comunicação, que cresceu 3,7% nos últimos 12 meses.

O que essa expansão mostra sobre a economia? Reflete o efeito da retomada gradual de atividades que tiveram de ser paralisadas em março, como salões de beleza, restaurantes, agências de turismo.

“Com as medidas de isolamento, muitos restaurantes estavam fechados, ainda que alguns estivessem funcionando por delivery. Com a flexibilização, eles começaram a abrir e a receita do segmento voltou a crescer, impactando o volume de serviços de junho”, disse o gerente da pesquisa, Rodrigo Lobo.

Entre os 166 serviços investigados pela pesquisa do IBGE, o segmento de restaurantes foi um dos que mais influenciaram o índice de junho.

Em que estágio estamos então? De gradual recuperação. “Mas não é nada entusiasmante”, diz Campos Neto.

O que precisa então para voltar a crescer? É aí que a situação se complica. O sócio da Tendências diz que o caminho do crescimento é longo e cheio de riscos. “Tivemos uma recuperação favorecida por medidas de estímulos, como o auxílio emergencial, redução de salários para empresas, adiamento de impostos, crédito extraordinária. Esses estímulos começam a ser retirados e a dúvida é sobre como fica a economia sem essa ajuda”, disse.

O risco, segundo ele, é que o fim do auxílio impacte o comércio e o setor de serviços, que também serão prejudicados pelo término do programa que permite que empresas cortem salários e suspendam contratos. “Há o risco de muitas empresas ficarem pelo caminho. Se tiver muita quebradeira, vai dificultar a recuperação.”

Outro cuidado, esse ainda mais preocupante, envolve o compromisso do país com o equilíbrio fiscal. “O Brasil está no fio da navalha, com uma relação dívida/PIB se aproximando de 100%. É preciso mostrar responsabilidade sobre como vai lidar com essa montanha de dívida nos próximos anos”, diz Campos Neto.

“Se o Brasil não demonstrar que a situação vai ficar em ordem, que quando tudo isso passar vai voltar para a responsabilidade, há o risco de o custo da dívida subir e sair do controle”, afirmou. “É preciso transmitir a mensagem que em 2021 vamos voltar para a austeridade fiscal e cumprimento do teto de gastos.”

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