A taxa básica de juros, a Selic, caiu de novo, e está em 5,5% ao ano. É a menor taxa da história do país. Mas, enquanto isso, os juros do cheque especial estavam em julho (último dado disponível) em 318,65% ao ano, e os do rotativo do cartão de crédito, em 300,29% ao ano.

A diferença é grande, né?

O 6 Minutos conversou com Ricardo Rocha, professor de Finanças do Insper, e com Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor de estudos e pesquisas da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), para entender por que os juros ao consumidor ainda são tão elevados.

Oliveira apresenta a ideia de que os juros são um produto, e a Selic, a primeira matéria-prima. Depois dela, há um conjunto de elementos que são precificados — ou seja, que ajudam a compor o preço final do produto. “Se os juros fossem uma camiseta, a Selic seria o algodão. Daí ainda precisam ser cobrados o salário da mão-de-obra, o custo da produção, a água, as máquinas, o transporte e as operações da loja que vende a camiseta”, compara.

Além da Selic, o que mais compõe os juros?

  • Custo de captação: para emprestar, os bancos precisam captar recursos, que estão nas poupanças dos correntistas ou nos investimentos do CDB (Certificado de Depósito Bancário). O custo de captação costuma ser indexado à Selic.
  • Impostos: o quanto a instituição financeira precisa pagar ao governo para operar.
  • Despesas administrativas da operação das instituições financeiras.
  • Risco de inadimplência, atraso e não pagamento dos créditos tomados. O risco é associado ao ambiente de negócios do país; quanto pior o ambiente, mais arriscado é emprestar e maiores os juros.
  • Os lucros que os bancos possuem.

E como são esses itens no Brasil? Os impostos são elevados. Consequentemente, o custo de operação dos bancos também. Além disso, a população está endividada e a taxa de desemprego está próxima de 12%. Isso significa menos renda e menor capacidade de pagamento, o que aumenta o risco de inadimplência, na percepção dos bancos.

O comportamento do consumidor influencia? O brasileiro consome mais do que poderia ou de fato precisa, opina Rocha. Isso faz com que a demanda por crédito seja alta, quadro piorado pela concentração do setor bancário – 85% de todo o crédito do país está concentrado em apenas seis bancos. Se há mais demanda, o preço sobe.

O que precisa acontecer para os juros caírem?

  • Concorrência: as fintechs, as startups do setor financeiro, têm estruturas significativamente menores que a dos bancos, com custos menores com pessoal, impostos e administrativos (como energia). A tecnologia está mais presente na operação e permite ganho de eficiência e de custos. Tudo isso significa que os custos transferidos aos juros seguem o mesmo caminho. Aos poucos, as fintechs ganham espaço nas concessões de crédito.
  • Educação financeira: Na visão de Rocha, do Insper, é importante que as pessoas saibam usar o crédito de forma correta, em vez de buscar recursos para itens dispensáveis. “Crédito é da vida e, se for bem utilizado, cria patrimônios ao tomador.” No entanto a atual recorrência da tomada de crédito mostra que o brasileiro tem um padrão de consumo diferente do que seria financeiramente saudável.
  • Tecnologia: O instrumental tecnológico possibilita às empresas reduzir os gastos administrativos, o que, por sua vez, abre espaço para reduzir o custo dos juros. É um caminho trilhado pelas fintechs.
  • Reformas: Isso mesmo, a da Previdência e a tributária. O professor do Insper lembra que elas são fundamentais para melhorar o ambiente de negócios e reduzir os riscos do país. Com as contas fiscais e previdenciárias em relativa ordem, será possível conter as despesas tributárias e haverá mais investimentos por parte das empresas, que podem contratar mais e, assim, gerar renda. O aumento da oferta reduz a pressão sobre os juros.

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