O anúncio do governo de que as fronteiras seriam reabertas para os visitantes estrangeiros parecia um pequeno refresco para o setor de turismo, altamente castigado pela pandemia do coronavírus. Em julho, as restrições sanitárias foram oficialmente eliminadas, e todo turista que viajasse para cá passou a ser desobrigado a cumprir uma quarentena ou a apresentar qualquer teste de coronavírus.

A expectativa era de que os turistas que já tivessem tido a doença, ou aqueles menos preocupados com a infecção, viessem para o nosso país. Mas parece que nem os estrangeiros nem os brasileiros estão dispostos a fazer viagens de longa distância durante a pandemia.

De acordo com um levantamento do Kayak, plataforma global de busca de voos, a procura por trechos brasileiros disparou em julho, mês de férias aqui e na maioria dos países. O número de buscas de voos dos Estados Unidos para o Brasil aumentou 2.200%, e as buscas da França para cá avançaram 3.300%. Comparativamente, o volume de brasileiros pesquisando por voos domésticos cresceu 1.200% no mesmo mês.

Mas para Eduardo Fleury, líder de operações do Kayak, a maioria das buscas continua não se concretizando — ou seja: o turista procura os destinos brasileiros, mas não compra as passagens. Os próprios dados do Kayak corroboram essa visão. Depois de uma explosão em julho, as buscas por voos brasileiros voltaram a registrar quedas de até 70%.

“A impressão que temos é que os estrangeiros estão só pesquisando, pois o câmbio ficou mais favorável para eles e a oferta está maior, porque os voos estão vazios”, explica Fleury, do Kayak. Ele diz que as companhias aéreas estão mantendo um número mínimo de voos para o exterior, mas que as aeronaves costumam voltar vazias, o que estimula a oferta de tarifas promocionais.

Quando, afinal, as viagens vão voltar? Para responder a essa pergunta, é preciso olhar para três fatores importantes: a segurança dos turistas, o interesse pelas viagens e o preço. O primeiro ponto tem sido o mais importante, já que embora os números de casos e de óbitos por coronavírus estejam em queda no Brasil, a situação da pandemia ainda é preocupante.

Em razão da alta taxa de contaminação, as empresas de fora não têm permitido que executivos e outros funcionários visitem o Brasil para a realização de reuniões ou para a execução de projetos. O turismo de negócio tem um peso importante para o setor de viagens, especialmente no eixo Rio-São Paulo. Os eventos corporativos e convenções também foram interrompidos, sem data para retorno.

A questão sanitária também afeta o turismo de lazer e eventos. Grandes atrativos para visitantes, como o Revéillon e o Carnaval, já foram cancelados, e eventos esportivos continuam em pausa. Algumas regiões brasileiras atraem turistas o ano todo, como as praias do Nordeste e do Sul, mas a redução da vinda de turistas dos países vizinhos afetará essas viagens menos sazonais.

“Se pensarmos que quase 40% dos estrangeiros que vêm para o Brasil são argentinos, e que a Argentina está em uma situação de isolamento mais restrita e com o câmbio extremamente desvalorizado, já dá para concluir que o turismo fora dos grandes eventos também vai diminuir”, diz Fleury.

Ele lembra, ainda, que a maioria dos países exige que os turistas cumpram uma quarentena ao voltarem de visitas ao Brasil, e que esse é um fator que afeta a decisão de vir ou não ao país.

Como estão as companhias aéreas? Embora os números operacionais estejam melhorando, as empresas do setor aéreo ainda enfrentam uma situação difícil. O número de passageiros dobrou em julho, mas permanece 80% menor do que o registrado no mesmo período do ano passado.

“As companhias estão fazendo acordos de codeshare para permitir otimização de frota, mas será necessário um aumento na ocupação dos voos para que elas decidam reabrir as rotas”, diz Fleury, do Kayak.

E quando o setor voltará ao normal? Para o líder de operações do Kayak, as companhias só voltarão para o ponto de antes da pandemia no final do ano que vem. Já o tempo para recuperar o tempo perdido seria maior, de três a cinco anos. Ele lembrou que o setor de turismo voltou para o mesmo de negócios registrado 20 anos atrás.

“Quando voltar, estaremos em outro mercado. Muitas companhias aéreas, hotéis e operadores de viagens não vão sobreviver à crise. Mas eu vejo um futuro próximo de muita cooperação entre as companhias”, diz Fleury.

As passagens podem ficar mais caras? A possível falência de algumas empresas do setor preocupa, pois pode causar uma redução na oferta e, por consequência, um aumento nos preços dos voos. Para o diretor de operações do Kayak, essa é uma possibilidade.

“Se chegarmos em um ponto em que a demanda for maior que a oferta, a companhia aérea vai cobrar mais caro, até para compensar esse período em que ela teve muitas perdas. Então, sim, podemos ter passagens mais caras até que voltemos a ter concorrência”, diz ele.

No entanto, Fleury não acredita que voar vai voltar a ser tão exclusivo e caro, como era 20 anos atrás. Ele diz que os brasileiros se habituaram a viajar de avião, e que a demanda no pós-pandemia será crescente. “Se as pessoas pararem de viajar, vai aparecer alguém com interesse de oferecer voos mais baratos para captar esse público”, diz. O foco da nova concorrência pode vir do segmento de low-costs internacionais, que já tinham começado o movimento de entrada no Brasil antes de a pandemia chegar.

No entanto, o câmbio pode ser uma grande pedra no caminho do setor. Apesar de ganharem em real, as companhias aéreas têm suas principais despesas (o aluguel das aeronaves e o preço dos combustíveis) atreladas ao dólar, o que causa preocupação, diante desse cenário em que a moeda americana e o euro seguem altíssimos.

E as viagens de carro? Na plataforma do Kayak, além de comparar os voos é possível cotar aluguéis de carros. O diretor da companhia conta que a busca por locação de veículos em agosto foi maior do que a registrada no mesmo mês do ano passado. Para ele, o aumento da busca por veículos e do chamado turismo de proximidade é decorrente de dois fatores importantes.

O primeiro é a sensação de segurança que a viagem no veículo dá, já que o viajante deixa de circular em ambientes mais cheios, como os aeroportos. “O segundo ponto é que a vida compartilhada fez com que as pessoas deixassem de ter carro, especialmente nas grandes cidades, e na hora de viajar eles precisam de um veículo”, explica Fleury.

Os números reportados pelas empresas do setor, como a Localiza e a Movida, mostram que muitos turistas têm visto no aluguel de um veículo a válvula de escape para as férias.

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