No mês passado, Hyun Jung-a embarcou em um voo no aeroporto Incheon, na Coreia do Sul. Cerca de duas horas depois, ela estava de volta ao mesmo aeroporto e fazendo compras no free shop, apesar de nunca ter pousado em outro país.

O voo da Air Busan, organizado pela empresa Lotte Duty Free para seus clientes VIP, foi o primeiro de Hyun desde o início da pandemia e não lhe custou um centavo. Como a aeronave deixou brevemente o território coreano e passou por uma ilha japonesa, os 130 passageiros a bordo puderam fazer compras em lojas duty free em Seul, normalmente reservadas para passageiros de voos internacionais.

Voos como esse são uma tentativa das operadoras duty free de salvar uma indústria dizimada pela Covid-19. Antes do vírus, os negócios estavam crescendo – o mercado global duty free valia US$ 85 bilhões em 2019 e caminhava para chegar a US$ 139 bilhões em 2027, de acordo com pesquisa da Verified Market Research.

As vendas despencaram à medida que os países restringiam as viagens internacionais. Globalmente, apenas 1,8 bilhão de pessoas pegaram voos regulares no ano passado, em comparação a 4,5 bilhões em 2019, segundo a Organização da Aviação Civil Internacional. A receita anual para a gigante duty free suíça Dufry AG, que opera free shops em todo o mundo, caiu 71%.

Hotel Shilla, a segunda maior operadora duty free da Coreia do Sul — atrás apenas da Lotte –, está oferecendo 114 assentos em dois dos chamados voos para lugar nenhum marcados para os dias 23 e 30 de maio e destinados a clientes que gastaram mais de US$ 550 em suas lojas desde 3 de maio. A Lotte está lançando outros cinco voos desse tipo este mês.

Operadoras duty free e outras lojas estão entre as últimas a se recuperarem da pandemia na Coreia do Sul, com os varejistas e atacadistas do país cortando 182.000 vagas de emprego em abril, mesmo com a economia criando 652.000 empregos no ano anterior, informou o escritório de estatísticas do país nesta quarta-feira.

O setor está menos pressionado onde o tráfego aéreo doméstico se recuperou e as zonas de compras livres de impostos estão em vigor. A ilha chinesa de Hainan, cercada de palmeiras, tornou-se um refúgio ainda mais popular para os turistas do continente, agora famintos por viagens internacionais. Isso ajudou as vendas isentas de impostos da província, que mais do que dobraram no ano passado, para 27,5 bilhões de yuans (US$ 4,3 bilhões), de acordo com o Ministério do Comércio.

Compras duty free são permitidas para turistas domésticos em Hainan desde 2011. Em julho, o governo aumentou o limite de gastos para que as pessoas comprem mais e está estendendo algumas compras duty free a Pequim, Xangai e outras cidades, a fim de aproveitar o crescente poder de compra na China.

Os preços das ações sugerem que os investidores estão otimistas. As ações da Dufry subiram mais de 100% desde o final de setembro, enquanto Hotel Shilla está próximo de bater uma máxima em quase 15 meses em Seul, subindo 13% este ano.

Com as taxas de vacinação ficando para trás em lugares como a Coreia do Sul — que aplicou vacinas suficientes para cobrir apenas 4% da população, segundo dados da Bloomberg — os varejistas podem confiar em truques como voos para lugar nenhum por um tempo.

“A contribuição desse voos é pequena, mas é melhor do que não ter nada”, disse Sung Junewon, analista da Shinhan Investment em Seul. “Cada pedacinho conta.”

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