Wendel Bezerra, dublador em São Paulo, alcançou modesta fama quando fez a voz do Bob Esponja Calça Quadrada em português algumas décadas atrás. Depois, vieram os trabalhos de dublagem de Robert Pattinson e Edward Norton.

Mas o grande avanço aconteceu há alguns anos – quando a Netflix intensificou seus esforços para atrair espectadores em todo o mundo, diz Bezerra, acrescentando que o número de projetos no mercado local aumentou 30 vezes. Ele foi convidado para talk shows locais, entrevistas para revistas, e até o reconheceram no shopping. “Os dubladores estão ganhando visibilidade”, conta. “Posso ser o dublador mais famoso do Brasil.”

Bezerra compartilha sua popularidade recente com dubladores em Barcelona, Paris e outros locais. Artistas de voz em todo o mundo estão vendo uma demanda crescente pelos seus serviços para streamings globais, incluindo o Prime Video da Amazon, o Disney+ da Walt Disney e a HBO Max da AT&T, que oferecem uma ampla variedade de programas em todo o mundo e em idiomas locais.

Na vanguarda está a Netflix, que expandiu seu serviço de streaming dos Estados Unidos para mais de 190 países nos últimos anos. Para satisfazer os espectadores em todos os lugares, de Seul a Buenos Aires, ela precisa criar versões locais de centenas de programas diferentes anualmente. Em um impulso que se tornou uma prioridade para o fundador e presidente executivo Reed Hastings, a Netflix estabeleceu parcerias com mais de 170 estúdios de dublagem que produzem programação em pelo menos 34 idiomas.

Nenhum programa evidencia a ascensão da dublagem melhor do que “Lupin”, série de ação policial baseada numa coletânea de livros sobre um ladrão. Filmado inteiramente em francês, tornou-se um grande sucesso no país de origem. Mas foi um sucesso ainda maior no exterior, tornando-se a estreia mais assistida de qualquer série em idioma diferente do inglês na história da Netflix.

“Lupin” é o primeiro programa francês a entrar no Top 10 da Netflix nos Estados Unidos. Ao longo de fevereiro, quase dois meses após sua estreia, ficou entre os dez programas mais populares do serviço de streaming em mais de uma dezena de países, incluindo Áustria, Croácia, Líbano, Nigéria e Uruguai. Ao todo, cerca de 86% dos que assistiram ao programa na Netflix usaram legendas ou dublagem.

“Às vezes é uma surpresa para as pessoas em Hollywood, mas apenas cerca de 5% da população mundial fala inglês nativamente”, disse Brian Pearson, vice-presidente da Netflix encarregado de serviços criativos.

A dublagem está ficando mais popular até mesmo nos Estados Unidos, um mercado que em grande parte evitou a programação em língua estrangeira. A Netflix permite que a maioria de seus usuários assista a programas em língua estrangeira com legendas ou dublados por artistas de voz que reencenam as falas na língua local, ou mesmo os dois ao mesmo tempo. O telespectador médio dos Estados Unidos assiste a três vezes mais conteúdo dublado do que em 2018, segundo a Netflix – com as dublagens agora ultrapassando as legendas como forma preferida dos assinantes.

Alguns mercados sempre preferiram a dublagem. No Brasil, maior mercado da Netflix fora dos Estados Unidos, a versão dublada em português de “Lupin” foi responsável por 89% das visualizações.

A empresa diz que uma parcela cada vez maior de seus telespectadores mundiais está optando pela dublagem, por ser mais agradável aos olhos após um longo dia de trabalho em frente ao computador e permitir que o telespectador faça várias tarefas ao mesmo tempo enquanto segura o celular. O número de pessoas que assistem a versões dubladas de sucessos como “Lupin” e “La Casa de Papel” está aumentando em mercados que historicamente preferiam as legendas.

Melhorar a dublagem se tornou uma grande preocupação para Hastings, porque é um elemento-chave para o futuro da empresa: países fora dos EUA correspondem a 64% dos clientes da empresa e 83% dos novos assinantes em 2020.

Dublar não é tão simples quanto repetir as palavras na língua local. O desafio para qualquer dublador é combinar uma tradução eficaz com peculiaridades locais. Os dubladores contam com escritores que traduzem roteiros e com diretores que ajustam palavras e frases para melhor corresponder ao movimento da boca do personagem.

Agora, a Netflix está replicando a infraestrutura de dublagem do Brasil e da Europa Ocidental nos Estados Unidos. E o sucesso inicial da empresa com programação estrangeira estimula Amazon, Apple Inc., HBO Max e Disney a seguirem o exemplo.

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