É uma sensação de liberdade sem tamanho poder sair de casa, na Itália, sem precisar carregar um documento oficial dizendo aonde você vai e o porquê – e não correr mais o risco de ser multado em até 1.000 euros por estar na rua.

Desde segunda-feira (18), após 70 dias de confinamento total devido à pandemia do novo coronavírus, a Itália liberou a circulação das pessoas dentro de suas próprias regiões, e desde então é possível andar por aí sem ter um motivo considerado urgente ou essencial, como ir ao mercado, à farmácia ou ao trabalho. Você pode simplesmente sair. E foi o que eu fiz.

O primeiro impacto foi notar um misto de alegria e preocupação nos semblantes de quem passeava pelas ruas de Milão, mesmo através das máscaras. Dava para ver o cuidado em manter a distância uns dos outros e a curiosidade com cada aviso de segurança nas lojas, com placas alertando sobre a capacidade máxima do lugar, a obrigatoriedade do uso de itens de proteção, os lugares marcados nas filas, a limpeza frequente do ambiente, a disponibilidade de álcool gel e até a necessidade de medição de febre. Muita coisa para se acostumar.

Praticamente todo o comércio recebeu a permissão para voltar a funcionar, desde que os locais sigam uma extensa lista de medidas preventivas. Nos restaurantes e bares, por exemplo, cada pessoa precisa manter uma distância mínima de 1 metro da outra, e a recomendação é de que os clientes só retirem as máscaras na hora de comer. Mas o que percebi nas andanças pelo centro de cidade é que a maioria das pessoas arranca máscaras e luvas (quando usam) logo ao se sentar.

Nesta chamada fase 2 de combate ao coronavírus, barbearias, cabeleireiros, centros de estética e hotéis também puderam retomar suas atividades, assim como missas e praias foram autorizadas a receber os moradores novamente. Mas o governo alerta a população constantemente: se o número de vítimas e infectados voltar a subir, o lockdown retornará. Por isso, a necessidade de continuar com a higienização habitual e evitar aglomerações. Nesta quarta (20), o país registrou 642 novos casos e 156 mortes por Covid-19.

A previsão é de que no dia 3 de junho a Itália experimente uma nova fase e seja possível viajar livremente pelo país todo. É nessa data que o governo também pretende reabrir as fronteiras para países da União Europeia – o lockdown e o fechamento das divisas começou em 9 de março. Cinemas e teatros devem voltar a funcionar em 15 de junho.

Duomo durante a tarde do dia 19/5

Duomo durante a tarde do dia 19/5/Crédito: Fabiana Seragusa

Veja detalhes de como está a fase 2 na Itália.

Restaurantes e bares

A recomendação é fazer sempre a reserva on-line, já que, com a obrigatoriedade da distância de 1 metro entre as pessoas, muitos estabelecimentos tiveram que reestruturar seus ambientes e diminuir a quantidade de lugares. A preferência, segundo o decreto do governo, é o uso de espaços ao ar livre, sempre que possível.

Cada local precisa disponibilizar produtos higienizantes para clientes e funcionários, tanto na entrada quanto próximo aos banheiros. E alguns deles, para intensificar a segurança, instalaram barreiras fisícas (como painéis de acrílico) para separar cada pessoa sentada em uma mesma mesa, evitando o contágio por gotículas.

Esqueça os menus de papel, todos agora precisam ser envoltos por plástico, para facilitar a limpeza. O ar-condicionado até pode ser utilizado, mas sem a função de recirculação de ar, para impedir a movimentação do vírus.

Em Milão durante esta semana, na região antes sempre badalada da Duomo, dava para ver que muitos restaurantes e bares ainda não tinham sido reabertos – assim como grande parte do comércio em geral. Além de muitos deles terem fechado as portas definitivamente, por causa da crise, vários outros alegam que ainda não houve tempo suficiente para se adequarem às novas regras. Nos estabelecimentos abertos, pouca gente comendo ou tomando um drink.

Clientes na Camparino da Galleria Vittorio Emanuele/Crédito: Fabiana Seragusa

Barbearias, cabeleireiros e centros de estética

Locais disputados após 70 dias de confinamento, as barbearias e os cabeleireiros voltaram a receber muitos clientes nesta semana. A distância de 1 metro entre eles também precisa ser respeitada, e, no caso de funcionário e cliente, quando a distância é menor, a recomendação é que o profissional utilize viseira de proteção, luvas e avental descartável.

Outra medida restritiva é que não pode mais haver revistas ou jornais para uso compartilhado, e cada área de trabalho deve ser desinfetada após cada atendimento. O uso de saunas e banheiras de hidromassagem está proibido.

Shoppings e comércio em geral

Tirando academias de ginástica e espaços culturais, praticamente todo o comércio está autorizado a abrir as portas. Os shoppings também, mas cada loja tem a opção de funcionar ou não. No CityLife, em Milão, descrito como o maior shopping em área urbana da Itália, a maioria delas permanece fechada – e pouca gente foi vista pelos corredores passeando ou procurando algo para comprar. Os locais abertos, tanto na área comercial quanto na praça de alimentação, estavam quase vazios. Mas a segurança é grande, com medição de febre na entrada do complexo – caso o visitante tenha temperatura superior a 37,5ºC, não pode entrar.

Já pelas ruas do centro da capital da Lombardia, região do país mais afetada pelo coronavírus, o movimento era maior, mas nada expressivo. Poucos lugares tinham fila para entrar (já que agora o número de pessoas dentro de cada loja é limitado), dentre eles, uma pequena loja de bebidas e guloseimas e uma grande rede de roupas e acessórios.

Shopping CityLife reabre com muitas lojas fechadas

Shopping CityLife reabre com muitas lojas fechadas/Crédito: Fabiana Seragusa

Museus e bibliotecas

A reabertura das bibliotecas e dos museus italianos já está autorizada, mas o governo decidiu, de última hora, e apenas em Milão, adiar o retorno das atividades para a próxima semana (dia 26). A ideia é que os espaços utilizem os próximos dias para testar todos os protocolos de segurança e saúde, ganhando mais confiança para receber os visitantes.

Os museus cívicos, como a Galeria de Arte Moderna, o Museu Arqueológico, o Museu del Novecento e os museus do Castello Sforzesco, vão reabrir em dias alternados e apenas mediante reserva – já que será liberada a visita de grupos limitados a cada meia hora.

Movimento no shopping CityLife

Movimento no shopping CityLife
Crédito: Fabiana Seragusa

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu WhatsApp? É só entrar no grupo pelo link: https://6minutos.uol.com.br/whatsapp.