Quando a Casa Palopó, um hotel de luxo de 15 quartos nas encostas do Lago Atitlan da Guatemala, começou a avaliar como reabrir o espaço para o turismo, procurou a aprovação de um grupo em particular: seus 5.000 vizinhos em Kaqchikel Maya.

A retomada nas atividades, no entanto, não foi bem recebida.

“Alguns tiraram fotos dos helicópteros chegando e saindo e registraram boletins de ocorrência nos acusando de promover aglomerações”, diz Claudia Bosch, dona do hotel. Moradores temem que a reabertura signifique a introdução do vírus em Santa Catarina Palopó, uma cidade remota onde, até hoje, nenhuma infecção por Covid-19 foi relatada.

Quem pode culpá-los? Destinos como as Bahamas registraram um aumento nas infecções em apenas duas semanas, desde a retomada do turismo. A Casa Palopó recebe moradores desde 1º de agosto, quando as viagens domésticas foram novamente permitidas na Guatemala. Já os estrangeiros terão de esperar até 18 de setembro, quando o aeroporto da Cidade da Guatemala voltará a funcionar.

O turismo é o carro chefe da economia na Guatemala. Como um dos grandes hotéis de luxo na região, a Casa Palopó desempenha um papel importante no bem-estar financeiro local. Sua equipe de 24 pessoas é composta quase inteiramente por moradores de Santa Catarina Palopó ou da vizinha San Antonio Palopó, e o desdobramento de seus salários competitivos beneficiam muito mais pessoas. Também, o apelo junto aos turistas do projeto Pintando Santa Catarina Palopó, encabeçado pelo hotel, um esforço artístico para pintar as fachadas da cidade com imagens indígenas coloridas, levou à fundação de quase uma dúzia de empresas locais.

Bosch, uma guatemalense de família tradicional de empresários, vê a reabertura do hotel como uma oportunidade de não só para seu negócio, mas também para toda área. “Os moradores estavam e ainda estão céticos e temerosos”, disse ela no início de setembro. Mas ela está ouvindo com atenção. “Estamos diminuindo lentamente essas preocupações, sabemos que será um processo longo.”

Hotel de luxo Casa Palopó, no Guatemala
Crédito: Divulação

Comunidade primeiro

Conversas com o prefeito de Santa Catarina do Palopó e seu líder indígena levaram a Bosch a criar o programa “Comunidade Primeiro”, que transformará 10% da diária de todas as reservas a partir de 18 de setembro em vouchers para os turistas gastarem em restaurantes selecionados e lojas de artesanato locais.

Inicialmente, o programa se concentrará em lojas pop-up, em que os hóspedes poderão gastar seus vouchers sem sair dos limites do resort. Entre elas, está o tradicional coletivo de tecelagem Centro Cultural, que oferece bolsas bordadas, lenços e huipiles — blusas coloridas usadas pelas mulheres maias. Para os locais que se sentem mais confortáveis com os turistas nas ruas, ao ar livre, a Casa Palopó também contará com outros parceiros como o Café TUK, que vende pacotes de grãos de café guatemaltecos. Os vouchers não utilizados serão doados ao coletivo Pintando Santa Catarina Palopó.

Bosch e sua equipe também querem melhorar a saúde pública da cidade, já tendo doado tecidos para a produção de máscaras e instalado estações de álcool gel em áreas de alto tráfego, como a praça principal e o cais. Eventualmente, eles planejam adicionar pias para a lavagem de mãos também.

Cozinhas emprestadas

A Casa Palopó não é a única a perceber que os negócios pós-pandemia dependem tanto do bem-estar de seus vizinhos quanto de seus protocolos de saúde pública. Para hotéis em áreas mais densas, entretanto, isso pode ter outros significados, como manter a boa relação com as empresas locais.

O Baltimore’s Hotel Revival, do conglomerado Joie de Vivre, emprestou suas cozinhas para comerciantes de comida que foram deslocados por causa pandemia. O espaço de 70 m² foi usado por empresas como a Sporty Dog, famosa por seus cachorros-quentes gourmet.

Já o Hyatt Regency Baltimore emprestou temporariamente sua cozinha ao Urban Oyster, o primeiro bar de ostras de propriedade de negros da cidade, que fechou em julho por causa da pandemia.

Do outro lado dos Estados Unidos, em Los Angeles, o hotel Andaz West Hollywood cedeu o terraço ao ar livre para a barbearia Barcode. O espaço abriga até cinco cadeiras de barbeiro, que o proprietário Jorge Lara diz estarem reservadas há semanas, estimulando a contratação de mais profissionais.

O diretor de vendas do hotel, Matthew Ojinga diz que o hotel ontem certa publicidade com o acordo, pretende continuar com a parceria. “Depois de encontrar o barbeiro certo, você fica com eles, não importa o quê.”

Já outros hotéis estão buscando iniciativas voltadas à saúde.

No Caribe, o Curaçao Marriott Beach Resort transformou seu lounge com vista para o mar, o Reef Club, em uma espécie de enfermaria, onde 30 profissionais realizam mais de 2.500 exames nos 3.000 visitantes semanais da ilha. O departamento de saúde não conseguia lidar com este volume sozinho, explica o gerente geral Mark Nooren. Diante da pressão do setor de turismo para aumentar o volume de turistas, o setor privado assumiu as responsabilidades de cuidar do bem-estar da população. De acordo com Nooren, o centro é administrado por “voluntários pagos” de vários setores, incluindo alguns de seu hotel, que não só fornece o espaço, mas também serve refeições diárias a eles.

“Nossa economia entrou em colapso”, explica Nooren. “Se a iniciativa ajudar a ilha a retomar o fluxo de turistas, irá beneficiar a todos nós.”

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