Estamos na época que costumava ser a mais colorida do ano, tanto no sentido literal quanto figurado. Colorida pelas luzes de Natal e pela alegria das reuniões familiares, das confraternizações do trabalho, das viagens, das férias.

Muito do colorido da vida perdeu a intensidade neste ano de 2020, entretanto. E quem está levando a sério a proteção contra a covid-19 terá que manter o sacrifício nesta virada de ano para preservar a própria saúde e a das pessoas queridas.

Pelas amostras que já vemos nas ruas e nas redes sociais, será preciso também lidar com um sentimento de indignação, já que muitas pessoas estão vivendo este período como se não houvesse amanhã – mesmo com os alertas dos epidemiologistas sobre as consequências trágicas que essa atitude poderá trazer às famílias brasileiras.

Relatórios de mobilidade produzidos pelo Google a partir do acompanhamento dos celulares mostra claramente o quanto o Brasil tem sido mais negligente em relação aos cuidados contra a contaminação. Na primeira semana de dezembro, o movimento em estabelecimentos de varejo e lazer do país ficou apenas 13% abaixo do valor de referência, composto por uma média de cinco semanas anteriores à chegada da pandemia.

Os números dos outros países indicam um nível bem maior de prevenção: Estados Unidos (-21%), Alemanha (-26%), Índia (-28%), Itália (-29%), Chile (-31%), Argentina (-32%), Espanha (-33%) e França (-34%).

Falta colorido

Não por acaso, o ano tem sido definido com termos que remetem à ausência de cor, de brilho e de nitidez. Para transmitir essa ideia, o jornal The New York Times recorreu à palavra blur, que significa “borrão” – bem conhecida de quem usa filtros para fotos nas redes sociais.

“No futuro, quando eu pensar sobre este período da pandemia, acho que a principal lembrança será mesmo a sensação de que a vida ficou menos colorida”, concorda o funcionário público Rafael Ribeiro Alves Jr., 35 anos, analista do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, em Porto Alegre.

O aspecto que mais contribui para essa sensação, diz Rafael, é a impossibilidade de encontros presenciais, desde aqueles que envolvem datas festivas até os mais corriqueiros, como viajar ou relaxar com os amigos. “Faz muita falta sair na sexta à noite para celebrar a vida depois de uma semana de trabalho. Adoro aquele frisson de ver o movimento, de conhecer gente nova. Acho que a gente nem tinha noção de quanto essa liberdade é importante.”

O afastamento forçado de eventos culturais também tem um forte impacto, já que ir a shows, peças teatrais, museus, lançamentos de livros ou estádios de futebol, entre várias outras possibilidades, sempre foi uma forma de recarregar o colorido da vida.

A angústia da espera

A queda das fronteiras claras entre vida pessoal e profissional, entre trabalho e lazer, contribui para a sensação de que tudo ficou difuso, misturado. E potencializou a “fadiga pandêmica”, que vem sendo estudada como um novo tipo de cansaço decorrente das circunstâncias em torno da covid-19 – não se trata de algo propriamente mental ou físico, e sim de uma mistura imprecisa dos dois.

O psiquiatra Francisco Baptista lembra que uma das piores sensações emocionais é a espera impotente – ou seja, ser obrigado a simplesmente aguardar, sem a possibilidade de agir efetivamente para mudar uma situação que provoca angústia. “Quem já ficou horas num hospital à espera de notícias de uma pessoa querida sabe bem como é essa sensação”, ele exemplifica.

Mesmo com as boas notícias relacionadas ao desenvolvimento das vacinas, não sabemos ainda por quanto tempo teremos que lidar com o receio de contaminação pela covid-19. Tudo o que podemos fazer, ao colocar a cabeça no travesseiro, é pensar que foi um dia a menos para a chegada desse momento tão esperado.

Sem válvulas de escape

Enquanto isso, a vida parece estar suspensa. Ao mesmo tempo em que cada dia passa voando em meio a tantas atribuições, o ano está demorando uma eternidade para terminar. Basta lembrar alguns acontecimentos de janeiro e fevereiro para ter a sensação de que ocorreram há mais tempo: a morte do astro do basquete Kobe Bryant num acidente de helicóptero e a vitória no Oscar do filme sul-coreano Parasita.

Rafael diz que a escassez dos momentos de respiro ao longo da pandemia acabou dando um espaço maior para aspectos negativos. “Antes podíamos até estar incomodados com a política, por exemplo, mas tínhamos válvulas de escape no cotidiano para lidar com isso. Agora a indignação e a sensação de impotência parecem maiores.”

Junto com a pandemia, há a crise política, os problemas econômicos, a crise ambiental, os episódios de racismo. Isso pode explicar, em parte, a indiferença que muitos jovens brasileiros têm demonstrado em relação à própria saúde e à saúde dos familiares: uma tentativa de recuperar o colorido perdido, fingindo simplesmente que nada está acontecendo.

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