Os efeitos diretos da pandemia impactaram todo mundo, no mundo todo, de formas diferentes e variadas. Para uma parcela da população, no entanto, mais do que desafiadora, a crise do coronavírus tem sido uma experiência traumática, pior que qualquer filme de terror.

O enredo, baseado em fatos reais, inclui reclusão prolongada, perda econômica, incertezas e, não raro, morte de conhecidos, amigos e até entes queridos.

No âmbito psicológico, a definição de “trauma” é uma resposta emocional diante de eventos terríveis, situações de risco de vida ou experiências inesperadas – bem à la covid-19.

“O estresse agudo diante de situações consideradas chocantes é algo comum e esperado”, diz Daniele Nazari, psicóloga da Zenklub, plataforma de saúde emocional. “O problema é quando o medo intenso e as memórias relacionadas ao acontecimento não desaparecem com o passar do tempo, o que prevê o estabelecimento do chamado transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), que afeta principalmente indivíduos já com alguma propensão a distúrbios de ansiedade.”

No caso de pacientes com “trauma pós-pandêmico”, o medo do contágio – seu ou de alguém da família – ainda é tão real e palpável quanto durante as piores fases da crise, segundo a especialista.

Mesmo com o avanço da vacinação e a queda consistente no número de mortes, eles seguem ansiosos, hiper vigilantes e estritamente reclusos, com receio de se expor e manter contato com quem quer que seja. Não é de se estranhar que muitos estejam lutando com a retomada progressiva dos eventos sociais e a volta, in loco, a escolas e escritórios.

“As reações são muito individuais e é preciso entender que alguns indivíduos precisarão de tempo e apoio psicológico para se recuperar e se ajustar à normalidade”, diz a doutora. “A perspectiva de estar em um local fechado trabalhando com outras pessoas, por exemplo, é algo inviável para eles, que costumam protestar abertamente sobre a volta ao trabalho híbrido ou presencial, chegando a ponto de pedir demissão antes que isso aconteça.”

Da porta para dentro

Head de Engenharia da Scispot, empresa de biotecnologia canadense e sem escritório no Brasil, Rafael Pileggi trabalha 100% remoto e vem mantendo, junto com a esposa e cinco crianças (entre filhos e enteados), a mesmíssima rotina sanitária e de isolamento desde março de 2020.

Na prática, isso significa restringir suas saídas ao mercado ou à padaria em horários de pouco movimento. Preocupado sobretudo com a segurança da enteada de nove anos, Dara, com um quadro de asma grave, o executivo, que perdeu a mãe por covid-19 no início do ano, conta que decidiu se matricular em uma faculdade online de biomedicina tão logo o primeiro lockdown, lá atrás, foi decretado.

Sem contar a realização de cursos sobre PT-PCR (método padrão para diagnóstico do coronavírus) e tecnologia biomolecular, entre outros.

O objetivo: entender melhor os métodos de atuação do “inimigo” – e dele se defender da forma mais ampla possível. Pileggi conta, inclusive, que mantém em casa um estoque de kits de testes padrão ouro, capazes de detectar o vírus em sua fase de transmissão.

“O resultado sai mais rápido, não precisamos nos deslocar para fazê-lo nem esperar dias pelo resultado”, diz ele.

Sua esposa segue no mesmo estado de alerta. “Como terapeuta ocupacional, às vezes ela precisa trabalhar presencialmente e, para tanto, não abre mão de um capacete de proteção importado, como aqueles usados na série Grey’s Anatomy, que a faz parecer uma astronauta”, brinca Pileggi.

Ao ser questionado sobre eventuais planos para baixar um pouco a guarda e voltar à vida offline, mesmo que de forma gradual, ele é enfático. “A meu ver, a pandemia continua tão perigosa quanto sempre foi, senão pior. Portanto, eu e minha família só afrouxaremos as rédeas quando nos sentirmos realmente seguros. Quando isso irá acontecer? Ainda não dá para prever nem dizer.”

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