Sabe aquela taxa para que a imunidade de rebanho ao coronavírus seja alcançada, estimada em 60% da população? Pois é, esse número vem sendo cada vez mais questionado por especialistas, que apontam que esse percentual, na verdade, pode ser pouco maior que 40%.

A imunidade de rebanho acontece quando uma parte importante da população é infectada por um vírus e se torna naturalmente imune a ele (ainda não se sabe a duração dessa imunidade). Esse é o momento em que o número de novos casos começa a cair independentemente de medidas de isolamento social, e a pandemia vai ficando cada vez mais controlada.

Até agora, a estimativa mais usada para o coronavírus era a seguinte: no momento em que 60 pessoas, em um grupo de 100, já pegaram a doença, o vírus passa ter muito mais dificuldade de encontrar novas vítimas, e por isso vai perdendo força.

Mas um novo modelo matemático, publicado em uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo, a Science, mostra que pode ser que não seja bem assim.

Isso porque esses 60% de imunidade de rebanho é um cálculo que parte da premissa de que a população seja formada por pessoas exatamente iguais: mesma idade, mesmo nível de interação social.

Sociedade heterogênea

Para tentar chegar mais próximo de como uma sociedade realmente funciona, os pesquisadores Tom Britton, Frank Ball e Pieter Trapman, autores do estudo, introduziram elementos como faixa etária e diferentes níveis de contato social no cálculo da imunidade de rebanho.

Esse modelo considera que as pessoas tendem a ter mais contato com quem tem a mesma idade. Avalia ainda que há grupos da população com graus diferentes de interação social: há os mais extrovertidos, os mais solitários, e aqueles que não são nem tão expansivos nem tão tímidos, que é a maioria da população.

Quando se pondera todos esses efeitos, eles descobriram que uma taxa mais representativa para a imunidade de rebanho ser alcançada é bem menor do que o imaginado até aqui: é de 43% –o percentual pode variar de acordo com as particularidades de cada região do planeta.

Boa notícia

Como os cientistas explicam no texto, essa conta é feita apenas para dar uma ideia de qual o real percentual necessário de infecção para que a propagação do vírus comece a declinar. “Isso deveria ser interpretado como uma ilustração, em vez de um valor exato ou mesmo a melhor estimativa”, afirmam eles no estudo.

De qualquer forma, o levantamento é considerado uma ótima notícia por estudiosos da pandemia, principalmente para países pobres como o Brasil, onde a quarentena acabou não sendo feita da forma como deveria em muitas cidades, ao custo de milhares de vidas.

O cálculo dos 43% foi feito se levando em conta que a taxa de transmissão (ou seja, para quantas pessoas cada infectado transmite o vírus) é de 2,5. Em um cenário de isolamento social maior, em que isso caia para 2, por exemplo, o percentual para se alcançar a imunidade de rebanho seria ainda menor, de 34,6%, segundo o estudo.

Na avaliação de especialistas como o biólogo Fernando Reinach, que é colunista do Estadão, o estudo pode ajudar a explicar a queda no número de novos casos em cidades brasileiras como Manaus e São Paulo.

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