A Rússia condenou os Estados Unidos pela pressão diplomática sobre o Brasil para rejeitar a vacina Sputnik V contra a Covid-19 e destacou que tentativas de interferência política em campanhas de vacinação custam vidas.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA disse em relatório anual publicado em janeiro que o Escritório de Assuntos Globais buscou persuadir o Brasil a não permitir a vacina russa, e acusou o governo de Moscou de tentar expandir sua influência nas Américas em “detrimento da segurança e proteção dos EUA”.

A ação demonstra a “hostilidade dos EUA em relação à Rússia e desrespeito aos interesses dos parceiros”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, à Bloomberg na terça-feira. “Com certeza, isso não contribui para os esforços conjuntos de combater o coronavírus” globalmente, afirmou.

Uma autoridade dos EUA distanciou o governo Joe Biden do relatório, emitido por seu antecessor, e disse que os EUA não estão em posição de desencorajar o Brasil ou outros países de aceitarem uma vacina que foi aprovada por reguladores locais. A autoridade, que falou sob condição de anonimato, não quis comentar sobre a vacina russa.

Não está claro o efeito do lobby dos EUA. Na semana passada, a União Química fechou acordo para importar 10 milhões de doses da vacina russa a partir de abril, e também tem o direito de produzir a Sputnik V internamente, embora o imunizante ainda não tenha sido aprovado para uso no país.

Ainda assim, é uma fração das mais de 550 milhões de doses que o Brasil tem sob contrato este ano com a Pfizer e com a Johnson & Johnson enquanto enfrenta atualmente o pior surto de Covid-19 do mundo, agravado por uma nova cepa. O Brasil registra cerca de 280 mil mortes por Covid-19 até o momento, o segundo maior número depois dos Estados Unidos.

Os EUA disseram que não enviarão vacinas ao exterior até que os americanos tenham sido vacinados, então, se os brasileiros “podem encontrar uma vacina na Rússia, por que obrigá-los a desistir dessa oportunidade?”, disse Peskov.

Na conta da vacina no Twitter, o Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF, na sigla em inglês) disse que tentativas de interferir nos acordos “são antiéticas e custam vidas”. Kirill Dmitriev, CEO do RDIF, que ajudou a desenvolver a Sputnik V e é responsável pela comercialização internacional, disse na semana passada que o Brasil será um dos principais centros de produção da vacina no exterior.

‘Pressão’ da vacina

A Rússia diz que cerca de 50 países aprovaram sua vacina, e vários milhões de doses já foram entregues à América Latina, principalmente para a Argentina e México.

A Rússia também promove a fabricação da Sputnik em quatro países da União Europeia, que atualmente examina um pedido de aprovação de uso.

“Somos categoricamente contra a politização da situação com as vacinas”, disse Peskov a repórteres em teleconferência. “Em muitos países, a escala de pressão não tem precedentes.”

Embora a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, tenha dito a repórteres neste mês que os EUA estavam “preocupados com o uso ou tentativa de uso de vacinas como meio de diplomacia por parte da Rússia e da China”, o governo de Washington enfrenta acusações de acumular suprimentos.

A Casa Branca não disse se alguma vacina produzida nos EUA foi exportada, mas, segundo a Moderna, sua produção no país é inteiramente para uso doméstico. A Pfizer e a J&J não quiseram dizer se exportaram alguma dose produzida nos EUA ou se planejam exportar.

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