Como se o desafio para garantir suas poucas vacinas contra a Covid-19 não fosse suficiente, a África agora enfrenta o problema de convencer a população a se vacinar. Apenas 5,22 milhões de pessoas na África Subsaariana foram imunizadas, uma região com uma população de cerca de um bilhão.

Da falta de confiança nas vacinas de fabricação chinesa no Zimbábue a teorias da conspiração na Costa do Marfim sobre a Covid-19 ser “um evento planejado por atores estrangeiros”, além da Somália, onde o grupo militante islâmico Al-Shabaab alerta que os cidadãos são “cobaias” da AstraZeneca, grande parte dos africanos tem evitado as vacinas.

Apenas cerca de 17,5% das doses disponíveis na Costa do Marfim e 19% no Zimbábue foram utilizadas. Já atrasada em relação ao resto do mundo no ritmo de vacinação, a onda de ceticismo – agravada pela falta de confiança nos governos locais e desinformação nas redes sociais – ameaça deixar o continente ainda mais para trás.

“Há muito medo e desconfiança em torno das vacinas”, disse Salomon Sadia Koui, profissional de saúde de 32 anos à espera de pessoas a serem vacinadas em um posto de vacinação montado no Parc des Sports de Treichville em Abidjan, Costa do Marfim. “As mulheres perguntam se a vacina vai deixá-las estéreis. Acreditam que é uma forma de controlar a população, porque os africanos têm muitos filhos.”

A hesitação em relação às vacinas prejudica os esforços dos governos africanos para controlar as sucessivas ondas do vírus. Uma pandemia prolongada atrasará a recuperação do continente que, segundo o Fundo Monetário Internacional, será a região mais lenta a se recuperar. Também proporcionará um terreno fértil para variantes do vírus que estão reduzindo a eficácia de algumas das vacinas usadas ao redor do mundo.

A relutância em se vacinar coincide com o ritmo implacável de mortes causadas pela pandemia. Tendo provocado mais de 3 milhões de mortes desde que surgiu em 2019, o fardo do coronavírus é cada vez mais carregado por alguns dos países mais pobres do planeta.

A África depende principalmente das vacinas da AstraZeneca fornecidas pela Covax – a iniciativa apoiada pela OMS, aliança de vacinas Gavi e Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias para oferecer doses mais baratas aos países em desenvolvimento. O programa distribuiu cerca de 11,5 milhões de doses para a África Subsaariana. Além disso, Zimbábue, Camarões, Senegal e outros países receberam doses doadas pela China, Rússia e Índia.

Na Costa do Marfim, uma pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África mostrou que dois em cada três marfinenses acham que a ameaça da Covid-19 é exagerada. Mais de 40% acredita que a doença foi planejada por “atores estrangeiros”, disse o CDC da África em fevereiro. Um dos primeiros países do mundo a receber vacinas da iniciativa Covax, a Costa do Marfim quase não utiliza as doses, tendo imunizado apenas cerca de 94.800 pessoas, ou 0,4% de sua população.

Em outros países, a Covid é vista como um plano das elites para lucrar.

“Quando organizações internacionais e países doadores começaram a anunciar a intenção de enviar assistência financeira, Camarões anunciou seu primeiro caso”, disse Fidelis Mbawah, estudante de pós-graduação em Yaoundé, capital do país. “É uma manobra para ganhar dinheiro.”

Não ajuda que os números oficiais para a África sejam relativamente baixos, com apenas 4,43 milhões de casos registrados e 117.890 mortes, 20% do número de pessoas que morreram nos Estados Unidos.

Quer tirar suas dúvidas sobre o Imposto de Renda de 2021? Mande sua pergunta por e-mail (faleconosco@6minutos.com.br), Telegram (t.me/seisminutos) ou WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).